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Jamil Chade


Pandemia pode gerar meio bilhão de novos pobres no mundo, alerta Oxfam

Sippanont Samchai/AzMina
Imagem: Sippanont Samchai/AzMina
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

08/04/2020 20h58

Resumo da notícia

  • Ao final da pandemia, mais da metade do planeta pode estar vivendo em condições de pobreza
  • América Latina ganharia 54 milhões de novos pobres
  • Pobreza extrema poderia atingir 1,1 bilhão de pessoas

A pandemia do coronavírus poderia jogar mais de 500 milhões de pessoas para a pobreza, caso governos não atuem imediatamente para socorrer a renda e emprego de setores inteiros de suas economias. O alerta está sendo lançado pela Oxfam, em um estudo que pede que governos, Banco Mundial, FMI e o G-20 se coloquem de acordo para resgatar milhões de pessoas.

Pelas estimativas da entidade, o número de pessoas que pode passar a ter uma renda diária abaixo de US$ 5,5 aumentaria dos atuais 3,38 bilhões de pessoas para 3,9 bilhões. O aumento seria de 547 milhões.

Na América Latina, o aumento da pobreza também corre o risco de ser importante. Pelas projeções, a região pode ganhar 54 milhões de pessoas extras com uma renda diária abaixo de US$ 5,5. No total, essa camada iria dos atuais 162 milhões para 216 milhões.

Entre 6% e 8% da população mundial poderiam ser jogados para baixo da linha da pobreza e, na prática, atrasaria a luta contra a pobreza em mais de uma década. Em alguns locais do mundo, 30 anos de desenvolvimento poderiam ser desperdiçados, como na África ou Oriente Médio.

Se tal cenário se confirmar, mais da metade da população do planeta poderia, uma vez mais, viver na pobreza ao final da pandemia.

A pobreza extrema - calculada com pessoas com a renda abaixo de US$ 1,9 por dia - também aumentaria, passando dos atuais 737 milhões para 1,17 bilhão. Na América Latina, essa camada da população passaria dos atuais 25 milhões para 38 milhões.

A análise publicada pela Oxfam foi realizada pelo Instituto Mundial para a Pesquisa de Desenvolvimento Econômico, da Universidade das Nações Unidas e liderada pelo King's College de Londres e pela Universidade Nacional da Austrália.

Em alguns locais, essa nova pobreza já desembarcou. De acordo com a Oxfam, mais de um milhão de trabalhadores do setor do vestuário em Bangladesh perderam os seus empregos em consequência da anulação ou suspensão das encomendas, principalmente da China e Ocidente.

Jose Maria Vera, diretor-executivo da Oxfam International, alertou que "as devastadoras consequências econômicas da pandemia estão sendo sentidas em todo o mundo". "Mas para as pessoas pobres dos países pobres que já lutam pela sobrevivência, quase não existem redes de segurança que as impeçam de cair na pobreza", alertou.

"Os ministros das Finanças do G20, o FMI e o Banco Mundial devem dar aos países em desenvolvimento uma injeção imediata de capital para os ajudar a salvar as comunidades pobres e vulneráveis", defendeu.

Ele prega cancelar todos os pagamentos da dívida dos países em desenvolvimento para 2020 e incentivar outros credores a fazerem o mesmo, emitindo pelo menos um bilião de dólares de direitos de saque especiais do FMI.

Na avaliação da Oxfam, as medidas teriam um impacto direto. A anulação dos pagamentos da dívida externa do Gana em 2020, por exemplo, permitiria ao governo conceder uma subvenção de 20 dólares por mês a cada um dos 16 milhões de crianças, deficientes e idosos do país durante um período de seis meses.

Já os saques especiais permitiriam ao governo etíope acesso a mais 630 milhões de dólares - o suficiente para aumentar as suas despesas de saúde em 45%.

"As desigualdades existentes ditam o impacto econômico desta crise. Os trabalhadores mais pobres dos países ricos e pobres têm menos probabilidades de ter um emprego formal, de beneficiar de proteções laborais, como o subsídio de doença, ou de poder trabalhar a partir de casa", disse.

No mundo, apenas um em cada cinco desempregados tem acesso a subsídios de desemprego. 2 bilhões de pessoas trabalham no setor informal sem acesso ao subsídio de doença - a maioria nos países pobres, onde 90% dos postos de trabalho são informais, contra apenas 18% nos países ricos. Um impacto especialmente profundo deve ser sentido entre as mulheres.

Para a entidade, governos precisam conceder subsídios em dinheiro àqueles que perderam os seus rendimentos e salvar as pequenas empresas vulneráveis.

Jamil Chade