PUBLICIDADE
Topo

Coluna

Jamil Chade


Tedros alerta líderes: "coloquem a politização do vírus em quarentena"

Diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, durante entrevista coletiva em Genebra -
Diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, durante entrevista coletiva em Genebra
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

08/04/2020 14h09

Numa declaração longa e das mais enfáticas desde que a pandemia surgiu, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, apelou para que líderes internacionais abandonem a politização do combate ao vírus. Para ele, se essa tendência continuar, governos terão de lidar com um número cada vez maior de "sacos de corpos". "O pior está por vir se continuarmos assim", alertou.

"Vamos ter muito mais corpos se não nos comportarmos. Pelo amor de Deus. Perdemos 60 mil pessoas. Mais de 1 milhão de pessoas estão infectadas. O que estamos fazendo? Isso não é suficiente?", atacou.

Tedros foi alvo de críticas por parte de Donald Trump, presidente americano. O chefe da Casa Branca ameaçou cortar recursos para a OMS, alegando que a entidade foi lenta em agir diante do risco e que teria uma postura "pró-chinesa".

Sem recursos dos EUA, a OMS sofreria um enorme abalo, já que a entidade depende dos recursos americanos para mais de 22% de seu orçamento.

Questionado sobre os ataques, Tedros foi duro e insistiu que, enquanto líderes usarem a crise politicamente, o vírus continuará a avançar no mundo. "Vamos nos unir. Essa é a única opção que temos. Se não querem união, se preparem para o pior", alertou.

O diretor da OMS lembrou como, ainda em fevereiro, declarou o vírus como "inimigo público número 1". Mas prometeu que, uma vez terminada a crise, sua entidade fará um exame de como agiu e de seus erros. "Mas, por agora, o foco é lutar contra vírus", insistiu.

Para Tedros, no âmbito nacional, está na hora de políticos abandonarem disputas partidárias e ideológicas. "Quando há uma fresta no nível nacional, é ali que o vírus explora", indicou.

Pedindo união nacional, ele admitiu que sabe das dificuldades de políticos de superar o debate partidário. "Fui político. Sei como é difícil. Mas é a coisa certa a ser feita", disse.

"Todos s partidos devem estar focado em salvar as pessoas. Por favor, não politizem o vírus. Ele explora as diferenças que temos nacionalmente", indicou.

"Se queremos acumular muito mais bolsas com corpos, então façam isso (politizar). Se não querem, não politizem. Quarentena à politização. Não precisam usar vírus para ganhar pontos políticos. Vocês têm outras formas de fazer isso. Isso é brincar com fogo. Precisamos nos comportar. É assim que vamos vencer", alertou.

Guerra Fria

Mas Tedros também pediu solidariedade global e lembrou que EUA e China devem repetir a aliança que americanos e soviéticos estabeleceram nos anos 60 contra a varíola.

"As duas nações se uniram. Tínhamos 2 milhões de mortes por ano. 15 milhões de infectados. O mundo não podia mais tolerar aquele desastre. E mesmo durante a Guerra Fria houve um acordo. E agora, EUA e China precisam se unir e lutar contra o inimigo", disse.

"Por favor, precisamos de união nacional. solidariedade honesta e liderança honesta de China e EUA", defendeu.

Fugindo de seu padrão sempre cauteloso, Tedros alertou para arrogância e ignorância. "Não vamos continuar a brincar com fogo.Teremos mais surpresas", alertou. "Da forma que estamos reagindo, vamos nos arrepender", disse.

Num gesto aos americanos, ele ainda elogiou generosidade dos EUA sob o governo de outro republicano, George W. Bush, nos projetos contra a Aids. "Salvou milhões de pessoas", disse.

Tedros, porém, deixou claro que não está preocupado com ataques pessoais que está sofrendo. "Estou mais preocupado com as mortes", disse.

"Não podemos perder tempo apontando o dedo. É trágico que tenhamos perdido tantas vidas", completou.


Jamil Chade