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Jamil Chade


Em cúpula sobre fim da 2ª Guerra, Araújo defende nacionalismo e critica ONU

06.mai.2019 - O presidente Jair Bolsonaro, o chanceler Ernesto Araújo e o ministro da Economia, Paulo Guedes, em viagem a Buenos Aires - Marcos Corrêa/Presidência da República
06.mai.2019 - O presidente Jair Bolsonaro, o chanceler Ernesto Araújo e o ministro da Economia, Paulo Guedes, em viagem a Buenos Aires Imagem: Marcos Corrêa/Presidência da República
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

08/05/2020 15h15

Resumo da notícia

  • Chanceler usa evento para marcar 75 anos da derrota do nazismo para alertar para riscos do comunismo
  • Para brasileiro, mundo precisa evitar que nova ordem mundial pós-pandemia seja dominada pelo comunismo
  • Araújo ainda pede, na ONU, que termo "multilateralismo" não seja usado

O chanceler Ernesto Araújo usou uma reunião extraordinária do Conselho de Segurança da ONU sobre os 75 anos anos da derrota do nazismo para defender o "sentimento nacional", a soberania, alertar sobre os riscos do comunismo diante da pandemia da covid-19 e pedir o fim do termo "multilateralismo".

A data de 8 de maio é um marco na história do mundo, com a derrota do fascismo na Europa. Nos diversos discursos, principalmente de líderes europeus, o tom foi o da condenação ao nacionalismo. Entre historiadores, não são poucos os que atribuem a guerra a um nacionalismo exacerbado.

O brasileiro, ainda que tenha chamado o nazismo de um regime totalitário, de tirania e insistido no papel das tropas brasileiras na guerra, usou parte importante de seu discurso no Conselho de Segurança para atacar o comunismo e falar em "sentimento nacional". E fez questão de fazer um paralelo entre 1945 e as ameaças em 2020, na pandemia.

Não vamos cair no erro de entrar numa era de crítica à soberania. Não vamos desprezar aqueles que lutam pelo sentimento nacional. Sem nações soberanas, não há liberdade.

"O sentimento nacional não é o problema do mundo hoje", disse. Segundo o chanceler, a ameaça à liberdade é a "erosão da soberania".

Criticas veladas ao comunismo

"Há 75 anos, a liberdade prevaleceu contra totalitarismo graças ao sacrifício de pessoas reais", disse. "Mas outra forma de totalitarismo, depois da guerra, fez sombra sobre metade da humanidade. Essa forma, nas décadas seguintes, tentou manipular a ONU", denunciou o chanceler, sem citar o termo comunismo.

"A ideologia no coração daquele totalitarismo, infelizmente, não está morta", alertou, em mais uma intervenção internacional transformada numa plataforma contra o comunismo.

"Ao longo dos anos, tal ideologia sempre trabalhou para sequestrar causas nobres, como direitos humanos, Justiça e proteção ambiental", disse.

O "plano comunista" sobre a pandemia

Ele ainda lançou um alerta sobre o risco de que, diante da pandemia, a saúde também passe a ser contaminada pelo comunismo. "Não vamos deixar a saúde ser mais uma vítima de um sequestro dessa ideologia para servir objetivos totalitários", afirmou o chanceler, pedindo que os demais países lutem para liberar esses valores da "manipulação e escravidão".

Há duas semanas, o chanceler já havia escrito um texto sobre o risco que o mundo corria diante do que ele chamava de um "plano comunista" por parte de alguns para usar a pandemia para dominar as instituições internacionais, entre elas a OMS (Organização Mundial da Saúde).

Agora, Araújo admitiu que a covid-19 é a maior crise desde 2ª Guerra. Mas alertou que esse não é o momento de permitir um novo totalitarismo. "Não vamos deixar uma nova forma de totalitarismo aparecer agora como ocorreu depois da Segunda Guerra", disse.

Segundo o chanceler, uma nova ordem mundial vai emergir depois da pandemia. Mas o mundo precisa lutar para que ela não seja a de um novo totalitarismo, mais uma vez numa referência velada ao comunismo.

O mundo que teremos é de mais liberdade. É um mundo de nações. Nação não é algo errado. Somos os mocinhos.

Ataques contra multilateralismo

Usando o termo "comunidade das nações", e não sistema internacional, Araújo fez questão de atacar o multilateralismo. Ele garantiu que quer trabalhar de forma construtiva no cenário mundial.

"Acho que precisamos evitar a palavra multilateralismo ao falar de instituições multilaterais", disse. "Palavras que terminam em ismo designam uma ideologia. Fascismo, nazismo, comunismo. Não vamos fazer do multilateralismo uma ideologia", defendeu.

Para ele, os governos precisam evitar que o mutilateralismo se transforme num "sistema de pensamento que recusa a realidade e se impõe na realidade".

"Vamos fazer das instituições plataformas para a verdade e liberdade", disse.

Araújo ainda fez uma ameaça à ONU. Para ele, a entidade deve ser um lugar para nações independentes. E não algo que as substitua. Para o chanceler, se a ONU "ignorar reais desafios e, no seu lugar, opta por politicamente correto, seu papel vai ser diminuído".

Jamil Chade