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Jamil Chade


Coronavírus: Após 8 semanas, volta à escola tem alegria, choro e incerteza

Crianças em escola chinesa usam "chapéu de um metro" - Reprodução / The Sun / Asia Wire
Crianças em escola chinesa usam "chapéu de um metro" Imagem: Reprodução / The Sun / Asia Wire
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

11/05/2020 12h04

Chorando desesperadamente, meu filho mais novo veio ao meu quarto nesta segunda-feira. O relógio marcava 4h17 da manhã.

No escuro, ele apenas repetia de forma dramática: "Não vou poder voltar para a escola". Logo notei que ele estava inteiro molhado. Tinha feito xixi na cama. De ansiedade. Por semanas, ele aguardava por esse dia, que logo começaria. Era a volta à escola em Genebra, depois de uma longa quarentena.

Na noite anterior, ele havia escolhido sua melhor roupa. Seu sapato e até sua meia, depois de provar a que melhor combinaria para seus padrões de seis anos de idade. Fazer a mochila também foi um momento especial, recolhendo seu material espalhado entre o escritório do pai, a cozinha, seu quarto e a sala de jantar.

Pelo telefone, ele e o irmão mais velho deixavam parentes em outras partes do mundo invejosos de que o grande dia estava chegando.

Depois de um banho quente em plena madrugada e de o tranquilizar da ansiedade do retorno à sua normalidade, voltei a conseguir que ele dormisse. Mas eu não.

Foram semanas de uma convivência rica e intensa. Chamar de "difícil" seria uma afronta à situação de bilhões de pessoas no mundo. Mas o período foi marcado ainda pela necessidade de explicar que somos extremamente privilegiados, que nunca foi tão fácil ficar fechado e insistindo em escancarar a realidade dramática de tantas famílias vulneráveis.

Não é uma volta à normalidade

A partir dessa segunda-feira, a Suíça iniciou uma transição para se desfazer das medidas de confinamento. Além da abertura parcial das escolas, restaurantes e lojas também foram autorizadas a funcionar, sempre com regras específicas e monitoramento.

O dia também foi de volta às aulas, ainda que de maneira parcial, na França, Grécia, Holanda e Croácia. No mundo, a Unesco estimou que mais de 1,2 bilhão de alunos ficaram ou ainda estão fora das escolas e universidades em 168 países.

A volta à escola, porém, não é uma volta ao "normal". Dias antes desse 11 de maio, a diretoria da instituição havia enviado um guia com cerca de 20 páginas sobre tudo o que poderia e não poderia ocorrer. Nada de alimentos que precisem ser esquentados. Cada um com sua garrafa de água. Tocar no professor? De forma alguma. Ao redor da mesa de cada um dos professores, uma linha foi desenhada no chão para delimitar a fronteira até onde os alunos poderiam chegar.

Apenas metade da classe estava permitida entrar na sala de aula. Por duas semanas, a escola ocorrerá de forma alternada. Um grupo iria na segunda-feira e o outro na terça. E assim por diante até o final de maio.

A disposição das mesas — que há anos já não era em fila — voltava ao modelo tradicional, na esperança de reduzir a interação entre as crianças e, portanto, o eventual contágio. Nada de compartilhar o lanche e nem de trocar uma bolacha por um chocolate, ainda que suíço.

Pais proibidos de entrar na escola

O recreio também passou a ser ultra controlado, com crianças da mesma sala brincando apenas entre elas e cada qual em uma parte do pátio.

Nenhum pai ou mãe estava autorizado a entrar na escola e, na porta, funcionários e professores eram os responsáveis por levar as crianças até as salas de aula. Nos olhares, uma mistura de alívio e alegria com incerteza e um ar de tensão. No dia anterior, dados da vizinha Alemanha indicavam com a taxa de contaminação havia subido depois do relaxamento da quarentena.

A escola, seguindo as autoridades locais e federais, havia estabelecido dezenas de medidas, inclusive limpar a classe duas vezes por dia. Sem uma cantina funcionando plenamente, a escola avisava que os almoços seriam todos frios e vegetarianos.

A reabertura das escolas não ocorreu sem polêmicas. Uma parcela dos pais se queixou de que o retorno seria ainda parcial, apenas em dias alternados. Outros, porém, insistem que a volta está ocorrendo cedo demais.

No final do dia, o retorno à casa foi marcado por muitas histórias e alguns lamentos. "Eu queria abraçar meu melhor amigo e não podia", disse o caçula, lembrando que a comida fria não era sua preferida. "Não tinha nada de normal", respondeu o mais velho, de oito anos. "Mas foi muito bom", completou, visivelmente satisfeito.

Na terça-feira, os dois meninos ficarão em casa. Será a vez da outra metade da escola descobrir o retorno às salas de aula. Um retorno, certamente. Mas longe de ser uma volta ao "normal". Ou será esse o novo normal?

Jamil Chade