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Jamil Chade


Ignorado diante de um desgoverno, Brasil se afasta de vacina e tratamentos

Cemitério Nossa Senhora Aparecida, em Manaus - Foto:Michael Dantas/AFP
Cemitério Nossa Senhora Aparecida, em Manaus Imagem: Foto:Michael Dantas/AFP
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

18/05/2020 06h07

Resumo da notícia

  • Antonio Guterres, secretário-geral da ONU, criticou governos que ignoraram alertas e aponta que, agora, colocam "peso" sobre o resto do mundo
  • Para o chefe da diplomacia das Nações Unidas, mundo não tem resposta unida contra o vírus.

Fora de uma aliança internacional para desenvolver uma vacina contra o vírus que deixou o mundo de joelhos, o governo brasileiro corre o risco de ficar distante de um acesso ao tratamento contra o coronavírus.

Nesta segunda-feira, a OMS iniciou sua Assembleia Geral da Saúde e a aliança sobre a vacina estará no centro do debate.

O evento foi iniciado com um alerta por parte de Antonio Guterres, secretário-geral da ONU: o mundo está pagando um preço alto por conta de líderes que ignoraram a severidade do vírus e as recomendações da OMS. Segundo ele, ondas e picos de doença estão se movendo aos países em desenvolvimento.

Há duas semanas, a coluna revelou com exclusividade como o Brasil não tinha sido convidado por europeus e pela OMS para fazer parte de um projeto de mais de US$ 7 bilhões em busca de uma vacina. A decisão de não chamar o Brasil surpreendeu diplomatas em Brasília, que desconheciam o projeto até dias antes de seu anúncio formal.

Nesta semana, o projeto ganhará forma, liderado na Europa por França e Alemanha, além de conduzido na América Latina por Costa Rica e Chile. O governo do México chegou a tentar coordenar uma posição latino-americana. Mas fracassou diante da falta de uma estratégia conjunta. A ideia é de que exista uma coordenação internacional para unir esforços.

Procurado há duas semanas, o governo brasileiro indicou que faria parte de "outros projetos". Mas nunca explicou quais seriam. Uma semana depois, o chanceler Ernesto Araújo manteve conversas com os governos dos EUA, Índia, Japão e Israel. Mas nada foi anunciado.

Conforme a coluna revelou no último domingo, a segunda saída de um ministro da Saúde em um mês aprofundou a desconfiança internacional sobre o país.

Tampouco contribuiu a tensão que o Itamaraty construiu com a China nas últimas semanas, com o chanceler Ernesto Araújo insistindo sobre o risco do comunismo em diferentes eventos públicos ou privados. O resultado: dificuldades para ter acesso aos produtos de Pequim para lidar com a crise, como respiradores ou máscaras.

Apesar de distante da aliança, o Brasil decidiu ser um co-autores de uma resolução que será submetida à votação nesta segunda-feira. Proposta pela UE, ela sugere que a imunização seja um bem público mundial e estipula quebra de patentes devam ser consideradas. Não está claro se o governo dos EUA vai permitir a aprovação do documento.

Há também em Brasília a percepção de que a aliança liderada por Costa Rica, França, Alemanha e outros signifique um acordo com as empresas que produzem a vacina. Sem a garantia de que essa negociação signifique de fato preços mais baixos.

Na OMS, porém, a estimativa é de que o caminho proposto pela Costa Rica seja a melhor forma de se chegar a um entendimento que evite mais uma guerra por patentes.

Críticas a quem ignorou o vírus

Durante o evento de hoje, mensagens veladas ao Brasil foram lançadas. Secretário-geral da ONU, Antônio Guterres, criticou governos que "ignoraram" alertas sobre a gravidade da pandemia e apontou que a economia só vai se recuperar quando vírus for vencido.

Guterres não citou nomes de países. Mas, desde a semana passada, o Brasil passou a estar no centro das atenções internacionais diante do número elevado de casos e mortes, além de uma sensação de desgoverno diante da mudança de ministros e a falta de uma estratégia.

O temor entre os técnicos é de que, sem um controle no Brasil, toda a América do Sul pode estar ameaçada.

"Países diferentes têm seguido estratégias diferentes, às vezes contraditórias, e todos nós estamos pagando um preço pesado", alertou Guterres.

"Muitos países têm ignorado as recomendações da Organização Mundial da Saúde. Como resultado, o vírus se espalhou pelo mundo e agora está se deslocando para o Sul global, onde seu impacto pode ser ainda mais devastador, e nós estamos arriscando mais picos e ondas", indicou.

Chamando a crise de "maior desafio da nossa era", Guterres apontou que a pandemia tem demonstrado "nossa fragilidade global". "Apesar dos enormes avanços científicos e tecnológicos das últimas décadas, um vírus microscópico nos colocou de joelhos", disse.

"Ainda não sabemos como erradicar, tratar ou vacinar contra a COVID-19. Não sabemos quando conseguiremos fazer essas coisas", admitiu.

Humildade

Tedros Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, pediu "humildade" por parte de líderes diante da pandemia. Segundo ele, todos querem reabrir suas economias. Mas, para que a recuperação seja real, tais relaxamentos precisam ser cautelosos.

"O vírus é fatal e rápido. Atua no escuro e se move como fogo. Precisamos tratar o virus com respeito e atenção que ele merece", defendeu. "Aqueles governos que se movem de forma precipitada correm o risco de minar a recuperação", alertou.

"Temos um caminho longo longo a percorrer", insistiu. Tedros ainda pediu que a ciência seja valorizada. "Quando mundo supera a ideologia, tudo é possível", disse.

Para ele, os governos que tiveram êxito foram aqueles que adotaram um pacote de medidas, e não apenas isolamento social ou testes. "Não há uma bala de prata ou solução simples. Vai precisa de muito trabalho, fidelidade à ciência", defendeu.

Já Guterres também deixou claro que governos não podem escolher entre salvar a economia e salvar vidas.

"Apelamos para políticas para enfrentar as dimensões sociais e econômicas devastadoras da crise", defendeu. Mas fez seu alerta. "Deixe-me ser claro: não há escolha entre lidar com o impacto na saúde e as conseqüências econômicas e sociais desta pandemia. Esta é uma falsa dicotomia", insistiu."A menos que controlemos a propagação do vírus, a economia jamais se recuperará", apontou,.

"Portanto, juntamente com a resposta de saúde, precisamos de apoio direto que mantenha as famílias e as empresas solventes. Deve haver um foco nos mais afetados: mulheres, idosos, crianças, trabalhadores com baixos salários e outros grupos vulneráveis", defendeu.

Ele quer que o G20 considere o lançamento urgente de um pacote de estímulos em grande escala, coordenado e abrangente, que represente uma porcentagem de dois dígitos do PIB global.

"Embora os países desenvolvidos possam fazer isso sozinhos, devemos aumentar massivamente os recursos disponíveis para o mundo em desenvolvimento.

"Proteger o mundo em desenvolvimento não é uma questão de caridade ou generosidade, mas uma questão de interesse próprio. O Norte global não pode derrotar a COVID-19 a menos que o Sul global o derrote ao mesmo tempo", disse. "Isso exigirá um enorme esforço multilateral", afirmou.

Jamil Chade