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Jamil Chade


Resposta do governo mergulha Brasil em crise de credibilidade internacional

Surto no Brasil aprofunda imagem negativa do governo pelo mundo - Reprodução
Surto no Brasil aprofunda imagem negativa do governo pelo mundo Imagem: Reprodução
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

20/05/2020 07h26

A explosão no número de casos da covid-19 no Brasil mergulha o país numa crise de imagem internacional. Nos meios diplomáticos, políticos, financeiros e nas manchetes dos jornais estrangeiros, o governo de Jair Bolsonaro é apontado como incapaz de dar uma resposta à pandemia, enquanto cartas passam a circular entre políticos estrangeiros sobre a situação no país.

Já ocupando a terceira colocação com maior número de casos no mundo e tendo o segundo maior número de registros nos últimos 14 dias, o Brasil passou a ser visto com preocupação pelo mundo.

Tal avaliação passou a ser traduzida em um abalo na credibilidade e reputação do país, já duramente afetada nos últimos meses por conta dos incêndios na Amazônia, da defesa da ditadura pelo presidente e por um comportamento pouco diplomático com líderes estrangeiros.

A constatação de mais de mil mortos em 24 horas jogou o país para as manchetes dos principais jornais do mundo, nesta quarta-feira. Na alemã DW, a referência é a uma "catástrofe" e citam a "recusa de Bolsonaro em levar à sério a pandemia".

No jornal suíço Le Temps, o Brasil é apresentado como o novo epicentro do surto e local onde "o presidente não reconhece a gravidade do vírus". Segundo os suíços, o Brasil "é um dos raros países que não conta com uma estratégia nacional". BBC, The Guardian, Al Jazeera, France24 e dezenas de outras publicações pelo mundo também trazem com destaque a crise, chamando inclusive de "novela brasileira".

Mas o impacto das mortes vai muito além das manchetes. Na ONU, o país já é considerado como "um dos epicentros" do surto hoje no mundo. Na OMS, a cautela em falar de Brasil foi substituída por uma sinalização de preocupação.

Entre os governos estrangeiros, a ordem é de se distanciar do Brasil. O governo de Jair Bolsonaro, conforme a coluna revelou há duas semanas, sequer foi informada, convidada ou simplesmente notificada da existência de uma aliança internacional liderada pela Europa que iria se criar para desenvolver uma vacina.

Nesta semana, a OMS realizou sua Assembleia Mundial da Saúde. O evento trouxe presidentes e chefes-de-governos de várias partes do mundo. Pela América do Sul, os representantes foram justamente líderes que tinham um discurso claro sobre a necessidade de lutar contra o vírus.

Jair Bolsonaro não mandou sua mensagem e a participação do Brasil se limitou ao general que ocupa o Ministério da Saúde, Eduardo Pazuello. Em seu discurso, ele abafou a crise e apresentou um governo atuando num ambiente de normalidade de relações com estados.

O evento da OMS, porém, trouxe como protagonista Ivan Duque, presidente da Colômbia. Em sua fala, ele insistiu que não há um dilema entre economia e vidas e chamou a crise do "maior desafio de nossa geração".

Segundo ele, se países e sociedades forem "disciplinados, terão êxito". Ele ainda apelou para que o mundo "trabalhe com a ciência. "A mãe terra está falando conosco", disse, numa referência ambiental.

Mario Abdo Benitez, presidente do Paraguai, foi outro a declarar na OMS seu apoio às estratégias de fechar escolas e economias como forma de frear o vírus. A pandemia reavalia quem somos, como somos", disse. "O que fizermos vai ser avaliado pela história", alertou o paraguaio, defendendo a reconstrução de um "mundo melhor".

Na América Latina, também estiveram próximo à OMS nos últimos dias os governos do Chile e da Costa Rica.

Pressão

Nesta semana, dezenas de deputados britânicos, alemães, italianos e de vários países ainda escreveram ao presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, para mostrar solidariedade do Parlamento Britânico aos esforços do Legislativo nacional.

Mas, no texto, os deputados ligam ainda o sentimento internacional de cooperação à crise ambiental. Para eles, se novos projetos de lei forem aprovadas no Brasil, o risco é de um abalo na credibilidade do país. Um deles é a proposta por Bolsonaro para regularizar terras em áreas públicas, o que levaria a um maior desmatamento.

Para os parlamentares, se isso for adiante, será a "reputação internacional" do país que está em jogo. Segundo eles, tal abalo pode ocorrer até mesmo nos "círculos de investidores".

Eles não foram os únicos a atacar o governo de Bolsonaro. No Reino Unido, a deputada Claudia Webbe afirmou seu apoio aos "brasileiros contra Bolsonaro".

Pierre Duchesne, ex-ministro da Educação do Quebec, chamou a situação do coronavírus como "preocupante" e lançou uma pergunta: o presidente de extrema-direita Bolsonaro é responsável?

No Parlamento Europeu, deputados enviaram uma carta à Comissão Europeia alertando para a crise brasileira.

No mercado financeiro, traders em mesas de grandes bancos revelam à coluna que a ordem tem sido a de "evitar o Brasil". Motivo: a incerteza sobre o que vai ocorrer no país nas próximas semanas.

Errata: ao contrário do que foi colocado numa primeira versão do texto, Duchesne não foi ministro da França. Mas do Quebec. O texto já foi corrigido.

Jamil Chade