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Jamil Chade


OMS aponta transmissão em alta velocidade no Brasil e defende isolamento

18.mai.2020 - Diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, durante coletiva virtual - China News Service via Getty Images
18.mai.2020 - Diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, durante coletiva virtual Imagem: China News Service via Getty Images
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

25/05/2020 13h39

A Organização Mundial da Saúde alertou para a transmissão "intensa" do coronavírus no Brasil e pediu que medidas de distanciamento social sejam aplicadas no país para frear o "fogo no mato". Para a entidade, o vírus não irá desaparecer sozinho.

A declaração foi feita pela entidade nesta segunda-feira. O Brasil é, desde a semana passada, o segundo país em número de casos no mundo.

"Em muitos países, quando chega a um certo nível, ele se move como fogo de mato. Isso acontece na China, em Wuhan, aconteceu em alguns países da Europa e agora está ocorrendo no Brasil", disse Tedros Ghebreyesus, diretor-geral da OMS. "Por isso, precisamos fazer tudo para desacelerar e isso é com medidas sociais. Precisamos ser o mais agressivo possível", declarou.

Há um embate sobre o distanciamento social no Brasil. O governo federal defende o chamado isolamento vertical, em que são tiradas de circulação apenas pessoas dos chamados "grupos de risco" —acima de 60 anos e ou com comorbidades mais suscetíveis à doença, como cardiopatias e diabetes. Os governos estaduais têm implementado quarentenas, restrição de circulação de veículos e até mesmo lockdown.

"A transmissão é bem intensa [no Brasil]", disse Michael Ryan, diretor de operações da OMS. Segundo ele, governos precisam fazer "tudo o que podem" para frear essa proliferação.

De acordo com Ryan, governos que não usaram o distanciamento amplo garantiram uma resposta com amplos testes e isolamento de casos. Ele admite que as quarentenas podem ter profundo impacto social. "Mas pode não haver alternativa", disse, apontando para situações de países sem a capacidade de testar e isolar.

"Nesse momento, salvo se tem uma tremenda capacidade de testar, é difícil ver com uma transmissão muito intensa pode ser suprimida sem uma parte de medidas (de distanciamento)", afirmou.

"No Brasil, muitos dos estados estão tentando implementar medidas. Não é que não estejam implementando. eles estão. Há variação. É necessário uma estratégia ampla envolvendo toda sociedade e governo", disse Ryan, adotando um tom diplomático para não citar o governo federal.

"Sobre suprimir infecção quando há transmissão generalizada, já dissemos desde fevereiro que é necessário fazer tudo o que podem. Há uma perceção que só se pode suprimir com medidas extremas. Certamente, em locais com alta transmissão, é uma maneira eficiente", explicou.

Segundo ele, enquanto as pessoas ficam em casa, as "chamas da pandemia" são reduzidas. Mas o período precisa ser usado para isolar casos e identificar surtos.

"Deixamos todos em casa até pensarmos o que fazer na próximo etapa, que é o que muitos países acabaram fazendo", disse. "Mas o que realmente gostaríamos é estar numa posição de que possamos identificar casos e colocar as pessoas que tiveram contatos em quarentena", disse.

"É mais eficiente colocar uma quarentena a uma população menor, e não a todo o país", disse, insistindo sobre o impacto econômico.

"Mas pode não haver alternativa. Se você não tem a capacidade de fazer detecção, testes", apontou. "As vezes, países não conseguem e então colocam lockdowns para investigar surtos, aumentar setor de serviços, aumentar testes", explicou.

"Assim, quando os números caem, ficam em controle de novo da situação", afirmou.

"Nesse momento em países com altas taxas de contaminação, salvo se eles têm uma tremenda capacidade de investigar casos, testar, colocar de quarentena as pessoas que tiveram contato, é difícil ver como esses países podem suprir a infecção sem algum nível de medidas sociais", ponderou.

De acordo com Ryan, alguns países asiáticos demonstraram que podem conter o vírus sem um completo lockdown. "Mas, para isso, adotaram medidas extensiva medidas para encontrar casos", explicou.

Vírus não irá desaparecer sozinho

O diretor da OMS também rejeitou a tese de que o vírus irá simplesmente desaparecer sozinho.

"Não há casos em que há uma intensa transmissão e simplesmente o vírus se vai sozinho. Isso não aconteceu. Todos os países com intensa transmissão tiveram de implementar algum nível de medidas sociais", alertou.

Tedros Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, defendeu que governos sejam mais rápidos que o vírus. "Se não existem medidas sérias, a velocidade (da transmissão) continuará alta", afirmou.

"Para vencer o vírus, precisa ter uma velocidade mais rápida que ele. Precisa adotar medidas para desalacerelar o vírus e preparar o sistema de saúde. Assim, você estará além dele", explicou.

"Enquanto o vírus tem todo o espaço e se move para onde ele quer, com a velocidade que tem, não se pode vencer", alertou. Quarentenas e lockdowns, portanto, são instrumentos para desacelerar a transmissão, enquanto o governo desenvolve estratégias para testar e fortalecer o sistema de saúde.

"isso vai permitir estar além do vírus. Caso contrário, se deixar ele ir, ter todo o espaço para se mover como quer, vai ser muito difícil controla-lo", afirmou Tedros.

O diretor-geral da OMS voltou a alertar que o vírus é "muito perigoso". "Ele se move rapidamente e ao mesmo tempo mata. Por isso temos 5 milhões de casos e mais de 300 mil mortes", alertou.

Jamil Chade