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Jamil Chade

Instável, Brasil corre o risco de convulsão social, aponta Índice da Paz

Policiais patrulham av. Paulista por causa de protestos com grupos pró e contra o presidente Jair Bolsonaro - ANANDA MIGLIANO/ESTADÃO CONTEÚDO
Policiais patrulham av. Paulista por causa de protestos com grupos pró e contra o presidente Jair Bolsonaro Imagem: ANANDA MIGLIANO/ESTADÃO CONTEÚDO
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

10/06/2020 01h00

Instabilidade política, protestos e violência podem ameaçar o Brasil nos próximos meses, como parte dos resultados da crise gerada pela pandemia do coronavírus. O alerta é do Instituto para Economia e Paz, que aponta o país entre os mais vulneráveis do mundo para lidar com os impactos da crise sanitária.

Nesta quarta-feira, a entidade publicou seu ranking anual que mede o Índice Global da Paz e constatou que, no primeiro ano do governo de Jair Bolsonaro, o país caiu na classificação. Hoje, o Brasil ocupa sua posição mais baixa desde que o levantamento começou a ser publicado em 2008. De 163 países avaliados, o Brasil ocupa a modesta 126ª colocação no ranking de paz social e econômica.

O Índice é a maior análise sobre a questão da paz no mundo, acumulando dados e tendências sobre aspectos políticos, sociais e econômicos. No total, 23 indicadores são considerados. O estudo também revela que o Brasil é um dos países que enfrenta a pandemia numa das situações de mais vulnerabilidade e pior resiliência social.

"O Brasil é identificado como um dos países com maior risco para ter dificuldade em lidar com os efeitos a pandemia", explicou Serge Stroobants, um dos diretores regionais do Instituto. "O resultado deve ser instabilidade, deterioração do reconhecimento de liderança política. Isso tudo levaria as pessoas para as ruas e as chances de isso se tornar violento é alta", afirmou.

Uma das debilidades é financeira. "Países com notas baixas de crédito, como Brasil, Paquistão, Venezuela e Argentina, podem não ser capazes de tomar empréstimos em quantidades suficientes para manter a recuperação de suas economias, levando ao aumento de instabilidade política, protestos e violência", disse o instituto.

Vamos ver maior desemprego, maior desigualdade, piores condições de trabalho. Não é um cenário positivo. O Brasil não estava preparado para um golpe extra.
Serge Stroobants, Instituto para Economia e Paz

Pandemia motiva protestos em todo o mundo

De acordo com a entidade, a covid-19 está gerando uma série de protestos pelo mundo, inclusive nos Estados Unidos, Alemanha, França e também no Brasil. "Milhões de brasileiros protestaram em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro contra a forma pela qual o governo está lidando com a pandemia", diz o informe. Além disso, protestos em prisões também têm sido registrados no Brasil e Venezuela diante das restrições impostas.

De uma forma geral, o levantamento mostra que a pandemia está tendo um impacto negativo no que se refere à paz no mundo, com a expectativa de uma polarização cada vez maior da sociedade. Se 2019 já havia sido um ano de turbulências e protestos, a covid-19 deve ampliar a instabilidade.

"Isto reflete o potencial do vírus para desfazer anos de desenvolvimento sócioeconômico, exacerbar as crises humanitárias e agravar e encorajar a agitação e os conflitos", indicou a pesquisa. O instituto ainda identifica o impacto econômico dos lockdowns como uma "ameaça significativa para a paz".

A maior crise econômica desde a Segunda Guerra Mundial deve se traduzir em um aumento de distúrbios sociais, greves gerais e manifestações antigoverno. Locais ainda que dependem de recursos internacionais para evitar um confronto maior - como Libéria, o Afeganistão e o Sul do Sudão — podem sofrer ainda mais.

Brasil já vinha caindo no Índice da Paz

Considerando o ranking mundial para 2019, o Brasil já havia sofrido uma queda de três posições. Desde 2018 quando o primeiro ranking foi produzido, o país já perdeu 38 posições. O que pesou no caso nacional foi a questão de segurança da sociedade. Apenas 17 países no mundo estão em situação pior que a do Brasil.

Hoje, praticamente empatado com a ditadura de Mianmar, o país ocupa uma posição mais baixa que Quênia, África do Sul e Mauritânia. Os piores colocados na classificação são Afeganistão, Síria e Iraque. Na liderança estão Islândia, Nova Zelândia e Portugal.

O instituto também deixa claro que a violência custa, hoje, 10% do PIB brasileiro, o equivalente a US$ 327 bilhões.

Na Síria, a taxa é de 60% do PIB, contra 51% na Venezuela. Enquanto isso, no Canadá, o custo da violência é de apenas 3%. No mundo, a conta soma US$ 14,5 trilhões, 10,4% do PIB mundial.

Austrália, Noruega e Nova Zelândia saem-se melhor na crise, diz estudo

Espera-se um aumento da instabilidade política na Europa, com tumultos e greves gerais que deverão aumentar. Importantes choques podem abalar países como a Grécia, Itália e Polônia, enquanto os mais resilientes e em melhor posição para enfrentar o futuro seriam a Noruega, Austrália e Nova Zelândia.

Para um dos autores do informe, Steve Killelea, "as tensões fundamentais da última década em torno dos conflitos, das pressões ambientais e dos conflitos socioeconômicos mantêm-se".

Mas ele alerta que "é provável que o impacto econômico da covid-19 aumente estas tensões, aumentando o desemprego, aumentando as desigualdades e agravando as condições de trabalho - criando alienação do sistema político e aumentando a agitação civil", disse.

"Encontramo-nos, portanto, num momento crítico", completou.