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Jamil Chade


Na ONU, Suíça coloca Brasil ao lado de ditaduras que atacam a imprensa

                                 O presidente Jair Bolsonaro, cumprimenta populares e fala à imprensa no Palácio da Alvorada                              -                                 Marcello Casal Jr/Agência Brasil
O presidente Jair Bolsonaro, cumprimenta populares e fala à imprensa no Palácio da Alvorada Imagem: Marcello Casal Jr/Agência Brasil
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

01/07/2020 13h20

O governo brasileiro de Jair Bolsonaro é alvo de críticas internacionais por sua resposta à pandemia e por ataques contra a imprensa, levando até mesmo o governo da Suíça a incluir o país sul-americano na lista de preocupações internacionais.

Num discurso nesta quarta-feira na ONU, a delegação suíça usou seu tempo para alertar sobre países que estão se aproveitando da emergência da covid-19 para violar direitos humanos, principalmente no que se refere ao papel da imprensa. Além do Brasil, Berna cita Cuba, China e Venezuela.

"A pandemia tem, entre outras coisas, destacado a centralidade dos direitos à liberdade de expressão e de acesso à informação", disse os diplomatas de Berna em seu discurso n ONU.

"A Suíça lamenta profundamente que muitos Estados tenham explorado a situação de emergência para restringir desproporcionalmente os direitos humanos, incluindo o direito à liberdade de expressão", afirmou.

"Observamos tais restrições ou medidas desproporcionais contra jornalistas e mídia independentes, em particular nos seguintes países: Bangladesh, Brasil, Camboja, Cuba, China, Egito, Iraque, Nicarágua, Rússia, Tanzânia e Venezuela", afirmou a delegação europeia.

"A Suíça pede a todos os Estados que garantam os direitos à liberdade de expressão e acesso à informação e que garantam que os atores da sociedade civil, jornalistas e defensores dos direitos humanos possam trabalhar livremente", afirmou.

A reação dos suíços causou surpresa por parte de outras delegações, sempre acostumadas à cautela da diplomacia de Berna. Os suíços, tradicionalmente neutros, optam por não criticar governos estrangeiros em público, na esperança de manter canais de comunicação com os diferentes países. Também surpreendeu a crítica diante do acordo comercial assinado entre os dois países no ano passado.

Os comentários ocorreram um dia depois que a alta comissária da ONU para Direitos Humanos, Michelle Bachelet, também destacou o comportamento do governo brasileiro de negar a gravidade da crise como um potencial elemento que iria aprofundar a pandemia. Ela também havia listado o Brasil ao lado de outros governos pouco democráticos, além dos EUA.

O governo brasileiro iria tomar a palavra para responder às críticas. Mas, no último minuto, retirou seu nome da lista dos países, sem dar explicações. Instantes depois, uma nova lista foi publicada, trazendo o Brasil como último no debate, o que obrigará o país a se pronunciar apenas nesta quinta-feira.

Indígenas também denunciam

O Brasil de Bolsonaro ainda será alvo de duras críticas durante a reunião do Conselho de Direitos Humanos, em Genebra, nos próximos dias. Entidades como Conectas Direitos Humanos e a Comissão Arns estão entre os grupos que apresentarão denúncias por conta da resposta do Brasil à pandemia.

O governo também foi alvo de uma crítica por parte de um representante de grupos indígenas. O adolescente Roger Ferreira Alegre, da Comunidade Amambaí no Mato Grosso do Sul, foi um dos que tomou a palavra na reunião do Conselho de Direitos Humanos para alertar sobre a crise no país relacionado aos povos indígenas e como o fracasso na resposta à pandemia aprofundou a situação.

"Para as crianças indígenas, a proteção do território é a forma de garantir nosso estilo de vida tradicional, nossa sobrevivência, nosso desenvolvimento como seres humanos e o exercício de todos os nossos direitos humanos", disse.

"Infelizmente, no contexto Guarani, existe uma dívida histórica por parte do governo brasileiro para demarcar nosso território. O governo Bolsonaro paralisou o processo de demarcação no país", acusou.

"Como consequência, vivemos em uma situação de insegurança, com riscos para a saúde, a alimentação e a integridade física e mental. Nossas crianças sofrem altos índices de desnutrição", disse.

Ele ainda alertou sobre a questão dos agrotóxicos. "No ano passado, 15 crianças entre 6 e 9 anos de idade que estavam tomando café da manhã na escola indígena da aldeia de Guyraroká foram cobertas por uma nuvem de agrotóxicos, causando vários danos à sua saúde", disse.

"Somos mais de 2000 famílias, cujos membros são 60% crianças, sobrevivendo em barracas de plástico sem acesso à água, saúde, educação, alimentação, em uma verdadeira crise humanitária", apontou.

O indígena, porém, alertou como a pandemia tem aprofundado a crise. "A covid-19 nos afetou de uma forma aguda. Falta comida em nossos acampamentos. Muitos de nossos pais e parentes adultos estavam contaminados trabalhando nas empresas frigoríficas da JBS", denunciou.

"A principal medida para proteger os direitos das crianças indígenas é garantir a demarcação de nossos territórios, completou.

Jamil Chade