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Jamil Chade


Pandemia tende a piorar e Brasil está no centro do furacão

Diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom Ghebreyesus, durate entrevista coletiva em Genebra -
Diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom Ghebreyesus, durate entrevista coletiva em Genebra
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

13/07/2020 12h21Atualizada em 14/07/2020 14h54

Resumo da notícia

  • "Não haverá uma volta ao antigo normal no futuro próximo", alertou Tedros
  • Erradicação já não é possibilidade realista e mundo precisa aprender a conviver com vírus
  • Com novo recorde diário, OMS aponta que 50% vêm de Brasil e EUA

Tedros Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, fez um alerta duro aos líderes políticos nesta segunda-feira, diante de números cada vez maiores da covid-19 e sem qualquer sinal de um controle. Numa coletiva de imprensa em Genebra, ele alertou que, se a situação atual permanecer, a pandemia irá ficar "pior, pior e pior".

"Vamos ser claros: muitos países estão na direção errada", afirmou Tedros, que insiste que o vírus continua sendo um "inimigo numero um" do mundo. "Mas as ações de muitos governos e pessoas não refletem isso", disse. "Não haverá uma volta ao antigo normal no futuro próximo", alertou.

Michael Ryan, diretor de operações da OMS, também elevou o tom do alerta. Falando da situação nas Américas e de sua reabertura, ele insiste que a crise é "preocupante". Mas deixa claro: governos terão de "encarar o problema". "A reabertura desses países levou a uma transmissão mais intensa", disse Ryan. "Os governos têm que ser claros nas mensagens à população", disse.

Para ele, superar o atual surto na região "vai levar tempo e vai exigir compromissos de governos e de indivíduos". Um dos desafios será o de "restabelecer a confiança" entre governos e suas populações. "Isso tudo está longe do fim", alertou Maria van Kerkhove, diretora técnica da OMS. "Mensagens confusa estão minando o aspecto fundamental da resposta: confiança", disse Tedros.

O alerta em uníssono entre os três membros da cúpula da OMS não ocorre por acaso. A entidade está assustada com outro recorde no aumento do número de casos de coronavírus em um período de 24 horas, com mais de 230.000 casos. O recorde global anterior foi na sexta-feira, com mais de 228.000 casos novos em todo o mundo.

O número de mortes na América Latina atingiu 144.758, ultrapassando o dos EUA e Canadá, e deixando a região em segundo lugar, apenas atrás da Europa.

"Se governos não se comunicam de forma eficiente, se não houver uma estratégia completa, e se população não respeitar medidas de controle, só haverá um caminho: (a pandemia) vai piorar, e piorar e piorar", disse Tedros. "Não há atalhos", insistiu.

O diretor da OMS, porém, insiste que esse não precisa ser o destino do mundo. "Todos os líderes e pessoas podem fazer suas partes para romper transmissão e acabar com sofrimento", insistiu.

Quatro grupo de países: Brasil e EUA têm 50% dos novos casos

De acordo com Tedros, dos 230 mil casos diários, quase 80% ocorreram em apenas dez países e 50% de apenas dois países: EUA e Brasil. "Ainda há muito para se preocupar", disse.

Segundo ele, nem todos os países estão sendo afetados da mesma forma e hoje o mundo se divide em quatro situações:

  • Grupo 1 - países que responderam rapidamente aos primeiros casos e conseguiram evitar grandes surtos. Para a OMS, os líderes desses países agiram e comunicaram de forma eficiente com suas populações, além de implementar estratégias para testar e isolar. Esses governos conseguiram suprimir o vírus.
  • Grupo 2 - O segundo grupo é de países que tiveram surtos grandes e, assim, conseguiram controlar graças à liderança forte. Para a OMS, esses países mostram que é possível controlar grandes surtos e indicam que a reabertura de sociedades ocorreu de forma cautelosa.
  • Grupo 3 - Um terceiro grupo se refere a países que superaram a primeira onda de casos. Mas, com a reabertura, estão registrando novos picos da doença. Para a OMS, esse grupo vive uma situação perigosa e estão perdendo os ganhos que obtiveram com as quarentenas.
  • Grupo 4 - A quarta situação é daqueles que ainda vivem uma intensa transmissão, principalmente nas Américas, onde estão 50% dos casos do mundo e o epicentro da pandemia.

"Se olharmos para as Américas, alguns países fizeram algum progresso. Mas a reabertura levou a uma nova transmissão. E agora estão vendo uma contaminação exponencial e sem a opção de voltar à quarentena por sua situação econômica", lamentou Ryan.

Aprender a viver com o vírus

Ryan repetiu seu alerta da semana passada de que não há hoje como falar em erradicação do vírus. "Temos de aprender a viver com vírus. Pensar que vai erradicar não é realista. E pensar que todos vão receber vacina não é realista", completou.

Ryan acredita que o momento é de também adotar escolhas pessoais que podem mudar a rota da crise, evitando aglomerações e adotando medidas de higiene. Caso contrário, a doença continuará a se transmitir.

A OMS teme que, sem uma liderança clara e uma determinação política, sociedades poderão ir "de quarentena em quarentena", com um impacto profundo para suas economias e vidas.

Tedros, porém, insiste que há ainda como controlar o vírus. Mas isso irá de depender de medidas que reduzam a mortalidade e transmissão, uma comunidade engajada e líderes comprometidos com suas populações. Para ele, governos precisam agir com base na "ciência, solução e solidariedade".

Incertezas

Além da dificuldade em lidar com os casos, Michael Ryan admite que ainda existem incertezas importantes sobre a covid-19. Uma delas é a capacidade de uma pessoa já contaminada em voltar a ser infectada. "Existem estudos que mostram que isso poderia ocorrer. Mas não sabemos ainda", admitiu.

Maria van Kerkhove aponta que as pesquisas indicam que uma pessoa já contaminada poderia desenvolver um certo nível de imunidade. Mas não se sabe qual dimensão e por quanto tempo. De acordo com ela, os estudos indicam que essa proteção perderia força ao longo dos meses.

Outra incerteza ainda se refere às crianças. As taxas indicam que elas representam apenas de 1% a 3% dos casos. E, em poucos lugares, essa taxa chegaria a 5%. "Vimos crianças morrerem", lembrou.

Mas novas pesquisas citadas pela OMS alertam que crianças com mais de dez nos poderiam estar menos protegidas e ter o mesmo nível de infecção que jovens adultos, a partir de 20 anos. Ainda que desenvolvam sintomas suaves, a questão tem uma implicação para a reabertura de escolas.

Ryan, por sua vez, teme que a questão das escolas se transforme em um jogo político e insiste que onde é transmissão intensa é difícil determinar o ambiente onde se está seguro.

Para ele, a melhor maneira de abrir escolas é quando há uma redução da transmissão comunitária numa região. Para isso, porém, governos precisam de uma estratégia de longo prazo e completa.

"Isso não pode ser mais uma bola de futebol político. Não é justo com nossas crianças. A reabertura de escolas deve estar baseada em riscos e dados. E sobre qual o risco numa comunidade", insistiu.

"Se suprimirmos o vírus, as escolas podem reabrir de forma segura. Mas não podemos transformar essa história em mais uma disputa política", completou.

Jamil Chade