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Jamil Chade


"Devemos ser discretos": alvo de Bolsonaro, OMS atua no Brasil sem alarde

Entrevista coletiva da OMS em Genebra -
Entrevista coletiva da OMS em Genebra
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

16/07/2020 04h00

O presidente Jair Bolsonaro já provocou a OMS (Organização Mundial da Saúde), citou o fato de seu diretor de "sequer ser médico", ameaçou sair da agência e insistiu por meses que não iria seguir as orientações da entidade. Mas, longe dos holofotes, a OMS passou a fazer parte da luta diária do Brasil contra a covid-19.

Por meio de parcerias com cientistas, institutos de pesquisas, governos estaduais e mesmo com o Ministério da Saúde, a OMS e seu braço regional — a Organização Panamericana de Saúde — tem atuado de maneira permanente no país desde o primeiro dia do surto.

"A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) e a OMS têm apoiado diariamente as ações do Ministério da Saúde do Brasil na resposta à covid-19 desde janeiro de 2020", diz a OMS. "Todos os estados brasileiros foram contemplados por algum tipo de ação de apoio", explicou.

A realidade se contrasta com um discurso oficial brasileiro de ataques contra a instituição. Em Genebra (Suíça), a cúpula da entidade explicou que sua estratégia é a de não responder às críticas ou provocações, justamente para continuar a poder atuar internamente no país. "Fazemos isso para poder continuar no terreno, discretamente", explicou um dos líderes da OMS, na condição de anonimato. "Precisamos ser discretos", insistiu.

Na sede da organização, o Brasil é considerado como uma das prioridades, já que representa um dos principais epicentros da doença e um país com uma população que pode afetar toda a região.

Procurado pela reportagem, o escritório da OMS em Brasília explicou a dimensão da estratégia da agência no país.

Ações ligadas à OMS no Brasil ocorrem desde fevereiro

"Antes do primeiro caso notificado da doença na América Latina, a OPAS organizou em fevereiro, junto com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e o Ministério da Saúde do Brasil, um treinamento para nove países sobre diagnóstico laboratorial do novo coronavírus", disse a instituição, ao ser questionada pela coluna. Participaram da capacitação especialistas da Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Panamá, Paraguai, Peru e Uruguai.

"Durante a atividade, os participantes fizeram um exercício prático de detecção molecular do vírus causador da covid-19, além de revisarem e discutirem sobre as principais evidências e protocolos disponíveis", explicou.

De acordo com informações prestadas pela agência, a OPAS também doou ao Brasil primers e controles positivos, materiais essenciais para diagnóstico do coronavírus. A agência ainda esclareceu que, junto com as autoridades de saúde brasileiras, disponibilizou reagentes para outros países da região das Américas.

Ainda em março, a Opas treinou especialistas em saúde pública do Brasil no uso da Go.Data, uma ferramenta que facilita a investigação de surtos e epidemias, entre elas a covid-19. "A capacitação foi feita a pedido do Ministério da Saúde do país", esclareceu a OMS.

Ferramentas, testes e estrutura

A Go.Data permite a coleta de dados de campo, rastreamento de contatos e visualização de cadeias de transmissão.

"Além disso, a OPAS está ajudando o Brasil a ampliar sua capacidade de diagnóstico, com a compra de 10 milhões de testes do tipo RT-PCR, que detectam se a pessoa está infectada com o coronavírus causador da covid-19", diz a agência.

"Também está disponibilizando cursos virtuais em português para profissionais de saúde e ajudando a fortalecer, em apoio às ações do Ministério da Saúde do Brasil, a capacidade de vigilância no município de Manaus e no estado do Amazonas — incluindo a contratação de 23 enfermeiros, 2 profissionais de biotecnologia, 4 farmacêuticos, 3 biólogos, 6 técnicos de enfermagem e 9 datilógrafos", destacou.

Parcerias com governos estaduais

Uma das frentes da OMS é a ajuda direta aos governos estaduais. No Pará, por exemplo, o organismo internacional ajudou a construir a Sala de Inteligência da Gestão, incluindo um painel de monitoramento da covid-19 no estado. "A ferramenta ajuda a identificar onde o vírus está circulando e produzir cenários que permitem a tomada de decisão com base em informações qualificadas", explicou a agência.

Na segunda semana de junho, a OPAS contribuiu com o governo do Mato Grosso do Sul na elaboração de um plano e critérios para ajuste de medidas não farmacológicas, como distanciamento social e restrição de viagens. "O objetivo é implementar ações tanto para o cenário atual quanto para o futuro", indicou a organização.

Já no Rio Grande do Norte, a organização apoiou o governo do estado no desenvolvimento de uma ferramenta para auxiliar as autoridades de saúde pública para monitorar a evolução da pandemia e tomar decisões sobre medidas não farmacológicas. "Esses indicadores facilitam a avaliação, por exemplo, sobre a necessidade de endurecer as medidas de distanciamento social -- ou apontam se é possível afrouxá-las", destacou.

Os municípios também foram auxiliados. Uma estratégia de gestão foi elaborada pelo Conselho Nacional de Secretários de Saúde (CONASS) e o Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (CONASEMS), com participação direta da OPAS.

"Essa ferramenta para avaliação de riscos busca apoiar gestores dos estados e municípios brasileiros na adoção de medidas de saúde pública, para reduzir a velocidade de propagação da doença, evitar o esgotamento dos serviços de saúde, especialmente de terapia intensiva, e minimizar o impacto da covid-19 na população brasileira", completa.

Jamil Chade