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Jamil Chade

OMS alerta para taxa de mortalidade de indígenas por covid-19

Homem do povo yanomami é atendido em Alto Alegre, Roraima; plenário do STF deve se debruçar sobre pauta acerca do papel do governo federal na proteção das terras indígenas na pandemia de coronavírus - Adriano Machado/Reuters
Homem do povo yanomami é atendido em Alto Alegre, Roraima; plenário do STF deve se debruçar sobre pauta acerca do papel do governo federal na proteção das terras indígenas na pandemia de coronavírus Imagem: Adriano Machado/Reuters
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

18/08/2020 04h09Atualizada em 18/08/2020 07h39

Resumo da notícia

  • OMS anuncia que deixa de publicar informe diário de casos
  • Taxa de mortes no Brasil por cada um milhão de habitantes é cinco vezes média global

A OMS alerta para o avanço da covid-19 entre a população indígena na América do Sul, indicando que a taxa de mortalidade é superior ao restante da população.

"Os relatos de casos de COVID-19 entre os povos indígenas estão aumentando em toda a região (americana), com uma taxa de mortalidade relatada maior neste grupo em comparação com os povos não-indígenas", destacou a agência.

O alerta ocorre no momento em que a ONU contesta os vetos do governo de Jair Bolsonaro em projeto que previa assegurar recursos para garantir proteção às comunidades indígenas e quilombolas diante da pandemia da covid-19. A entidade afirma que o estado brasileiro deve adotar "medidas afirmativas concretas" para lidar com grupos vulneráveis e se diz "preocupada" diante da recusa do Executivo em assegurar orçamento.

A declaração da entidade faz parte de uma carta enviada pela ONU para a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. O Legislativo, em reação às atitudes adotadas pelo governo Bolsonaro, havia solicitado a opinião da entidade internacional.

Há poucas semanas, Bolsonaro vetou artigos em um projeto de lei a exigência de fornecimento de acesso a água potável e distribuição gratuita de materiais de higiene, limpeza e de desinfecção para as aldeias indígenas. Ele também barrou a obrigatoriedade de o Executivo liberar verba emergencial para a saúde indígena, instalar internet nas aldeias e distribuir cestas básicas.

As medidas faziam parte do projeto de lei 1142, que buscava assegurar medidas emergenciais, durante a pandemia, para povos indígenas, quilombolas e outras comunidades tradicionais.

O presidente também vetou o dispositivo que exigia que o governo facilitasse aos indígenas e quilombolas acesso ao auxílio emergencial e executasse ações para garantir a essas comunidades a instalação emergencial de leitos hospitalares e de terapia intensiva, com o fornecimento de ventiladores e máquinas de oxigenação sanguínea.

Num documento técnico, a ONU aponta como os artigos vetados pelo governo são, de fato, essenciais para que o país possa cumprir suas obrigações de proteger as populações contra a pandemia.

Na carta, a ONU destaca como os governos "possuem o dever de incluir pessoas que são marginalizadas e que podem enfrentar risco de omissão, exclusão ou desigualdade". "Não deixar ninguém para trás" deve ser o fio condutor das mais diversas ações de combate à pandemia, conforme as Diretrizes Relativas à COVID-19 publicadas por este Escritório", indica.

Mortes: Brasil tem taxa cinco vezes superior à média mundial

De acordo com a OMS, o Brasil soma 3,2 milhões de casos. 313 mil foram registrados na semana que terminou no dia 16. Isso significa 15,4 mil casos por cada um milhão de habitantes, um número inferior ao que existe nos EUA, Peru, Panamá e Chile. Mas muito superior à média mundial de 2,7 mil casos por um milhão de habitantes.

No que se refere às mortes, o Brasil registrou 6,9 mil em uma semana e um total de 105 mil. Ou seja, 501 casos para cada um milhão de habitantes. A taxa é mais de cinco vezes superior à média de 98 mortes por um milhão no mundo.

Fim de boletins diários

A agência anunciou que deixará de publicar seus informes diários sobre os novos casos da covid-19, ainda que manterá em seu site um levantamento a cada dia dos novos infectados.

Desde janeiro, a entidade publicou mais de 200 informes sobre o avanço da situação da pandemia. Mas com quase 300 mil casos diários, a agência passa a publicar apenas um levantamento por semana.

De acordo com o primeiro informe nesse modelo, a semana que terminou no dia 16 de agosto registrou 1,8 milhões de novos caso e 39 mil mortes.

"Isso eleva o total cumulativo para 21,2 milhões de casos confirmados de COVID-19, incluindo 761 000 mortes", declarou.

"Nos últimos sete dias, o número de casos comunicados diariamente aumentou rapidamente com uma média de 260 000 casos e 5 500 mortes", aponta.

De acordo com a OMS, o continente das Américas "continua sendo a região mais afetada nos últimos sete dias, respondendo por 53% de todos os casos recentemente confirmados e 75% das mortes relatadas".

Ainda assim, a entidade apontou que o número de casos relatados na semana passada permaneceu estável em relação à semana anterior nas Américas, com um aumento inferior a 1% no número de casos recém confirmados. "No entanto, durante o mesmo período, o número de mortes aumentou em 13%", alertou.

O número de mortes relatadas no Peru, por exemplo, aumentou 220% nos últimos sete dias para um total de 25.800 e uma taxa acumulada de 784 mortes por 1 milhão de habitantes, que é atualmente a mais alta da região.

De acordo com a OMS, os Estados Unidos relataram 360.000 novos casos, uma redução de 4% em relação à semana anterior. Mas a agência explica que esse decréscimo pode, em parte, ser atribuído a uma subnotificação de casos na Califórnia "devido a problemas tecnológicos com o sistema eletrônico de notificação".

Região Europeia

A OMS também indicou que o número de casos relatados na Região Europeia também aumentou gradualmente nas últimas semanas. "No entanto, não houve nenhuma mudança substancial no número de casos relatados nesta semana em comparação com a semana anterior", indicou.

"No entanto, vários países da região estão mostrando um ressurgimento em casos como França, Alemanha, Holanda, Espanha e Reino Unido. Vários surtos da COVID-19, que têm contribuído para o ressurgimento de casos, foram relatados em instalações de processamento e embalagem de carne em vários países, incluindo Bélgica, Dinamarca e Alemanha", destacou.

"2 480 mortes foram relatadas em toda a região nos últimos sete dias, o que representa uma diminuição de 21% em relação à semana anterior. Entretanto, após um processo de revisão retrospectiva no Reino Unido, mais de 5 000 mortes foram deduzidas do total de mortes na COVID-19 do país, resultando em uma diminuição de 2 728 mortes na região europeia", completou.