PUBLICIDADE
Topo

Jamil Chade

OMS: Reabrir escolas em locais de transmissão intensa será "difícil"

Os médicos e autoridades Mike Ryan e Tedros Adhanom Ghebreyesus também alertaram contra a redução das restrições de bloqueio muito cedo - Reuters
Os médicos e autoridades Mike Ryan e Tedros Adhanom Ghebreyesus também alertaram contra a redução das restrições de bloqueio muito cedo Imagem: Reuters
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

19/08/2020 11h25

A Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta que reabrir escolas em locais onde a transmissão do vírus é intensa será uma tarefa "difícil". A entidade, nesta quarta-feira, deixou claro que sabe da importância de retomar aulas e permitir que as crianças voltem aos estabelecimentos de ensino.

Mas, segundo o chefe de operações da entidade, Mike Ryan, tal retorno precisa ocorrer "da forma mais segura possível". O irlandês não acredita que testar crianças seja a resposta. Para ele, o centro da estratégia deve ser a de reduzir a transmissão nos locais onde escolas serão reabertas.

"Escolas são parte da comunidade", disse. "As taxas precisam cair na comunidade. É difícil trazer (a escola) de volta quando há transmissão intensa", afirmou.

Ryan destacou como, em alguns locais, escolas têm sido criativas em suas soluções, reduzindo o número de crianças por professor, separando as mesas e instalado locais para lavar as mãos. Segundo ele, as escolas precisam de um plano para identificar casos suspeitos e saber o que fazer nessas situações. "Esse é um momento de preocupação para os pais", disse.

O representante da OMS voltou a destacar como são as escolas em locais mais pobres - e portanto com maior risco de transmissão - que mais sofrem com a falta de recursos para que possam se preparar para uma retomada das aulas. "Mais uma vez, são os mais pobres e excluídos os que estarão sob maior risco", lamentou.

De acordo com a diretora técnica da OMS, Maria van Kerkhove, um pessoa pode manter o vírus em seu corpo por um "longo tempo" e estudos ainda estão tentando determinar essa presença.

Foco nos próximos seis meses: testar, rastrear e isolar

Diante desse cenário, tanto ela como Ryan insistem que o foco de governos em todo o mundo para os próximos seis meses é investir em testes e rastreamento. Caso contrário, novos confinamentos podem ter de ser declarados.

"O centro da estratégia para os próximos seis meses no controle da doença: dar mais atenção para testar, identificar caso, identificar os contatos e pedir quarentena dessas pessoas", explicou Ryan .

"Se isso for adotado, reduziríamos o número de casos e é a fraqueza desse sistema que está causando problemas", alertou. Para ele, governos não estão comprometidos suficientemente com estratégia.

"Estamos diante de uma escolha difícil: ou teremos um novo salto da doença e vamos para novos lockdowns - o que sabemos que não é a forma mais eficiente - ou optamos por testar e isolar as pessoas identificadas", disse.

Segundo ele, o comportamento da sociedade de voltar a se abrir e não seguir recomendações tampouco tem ajudado. "Há um mix muito perigoso e estamos vendo isso ocorrer em alguns países", alertou.

Na avaliação de Ryan, governos não têm realizado investimentos suficientes em testes e isolamento. "

"Estão sangrando trilhões em incentivos para a economia. Mas não investimos suficientemente na arquitetura para testar e isola pessoas", lamentou. "Há uma escolha a ser feita aqui. Se não investirmos, veremos novos confinamentos", declarou.

Sua avaliação é de que a atual pandemia expôs profundas injustiças sociais. Mas alertou que, pelo mundo, essa é realidade de outras sociedades que, por anos, tiveram de lidar com outras doenças. "Essa é mais cruel e mais brutal, pois é visto em todos os lugares do mundo. Mas outros experimentam isso há décadas e não damos a mínima, pois ocorre longe de nós", disse.

"Precisamos colocar um fim a isso. Precisamos um novo mundo", completou.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL