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Jamil Chade

Em derrota para governo, Teich é vetado para investigar OMS

Nelson Teich anuncia durante entrevista coletiva que escolheu sair do cargo de ministro da Saúde - ADRIANO MACHADO/REUTERS
Nelson Teich anuncia durante entrevista coletiva que escolheu sair do cargo de ministro da Saúde Imagem: ADRIANO MACHADO/REUTERS
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

03/09/2020 08h01

Resumo da notícia

  • Brasileiro foi apresentado pelo governo como candidato a fazer parte da equipe independente que examinará agência mundial
  • Junto com EUA, Brasília adotou um tom crítico em relação ao papel da OMS na pandemia
  • Investigação, porém, também avaliará de que forma governos responderam às orientações da OMS
  • Um colombiano e um mexicano representarão a América Latina no novo comitê

O ex-ministro da Saúde Nelson Teich não foi escolhido para fazer parte de uma comissão que irá investigar a resposta da OMS (Organização Mundial da Saúde) diante da pandemia no novo coronavírus.

O veto é uma derrota para a diplomacia brasileira, que esperava colocar o especialista na iniciativa e chegou a fazer campanha nos bastidores para que seu nome fosse aprovado.

A lista dos peritos foi divulgada na manhã de hoje, numa reunião fechada entre governos em Genebra, na Suíça. Nenhum brasileiro fará parte do comitê, que contará com dois latino-americanos.

A "candidatura" do nome escolhido por Jair Bolsonaro estava sendo interpretada como uma espécie de teste da relação entre a comunidade internacional no setor de saúde e o governo em Brasília.

No lugar dele estará Mauricio Cárdenas, ex-ministro de Finanças da Colômbia, além de Ernesto Zedillo, ex-presidente do México. Nomes da China, Índia e África do Sul farão parte da iniciativa.

Uma investigação sobre o comportamento da OMS (Organização Mundial da Saúde) diante da pandemia foi uma das exigências dos governo dos Estados Unidos. A Casa Branca insistiu que a agência falhou em alertar ao mundo e que sofreu pressões da China para não declarar uma emergência global mais cedo.

Profissionais da Nova Zelândia e Libéria lideram equipe

Mas, mesmo com o projeto de revisão do sistema, o presidente norte-americano Donald Trump anunciou sua retirada da entidade. Em maio, o inquérito foi aprovado em uma resolução que também contou com o apoio do governo brasileiro e europeus.

Há um mês, a entidade escolheu as personalidades que irão liderar o processo independente: Helen Clark, ex-primeira-ministra da Nova Zelândia, e Ellen Johnson Sirleaf, ex-presidente da Libéria.

Elas, porém, contarão com uma espécie de comissão e foi para esse grupo que Teich estava sendo indicado. O brasileiro permaneceu por apenas algumas semanas no Ministério da Saúde. Durante seu breve período, ele acenou para recomendações da agência internacional.

Mas Teich sofria a resistência de outros países latino-americanos e mesmo de membros da comunidade internacional que viam com desconfiança um ex-ministro do governo Bolsonaro assumindo o papel.

Resposta de governos à pandemia serão avaliadas

O diretor-geral da OMS, Tedros Ghebreyesus, deixou claro que a avaliação não será apenas limitada à agência. A meta é também de avaliar até que ponto governos seguiram ou não as recomendações do organismo.

O Brasil estaria na mira justamente desse trabalho e críticos alertavam que poderia haver um choque de interesses.

Havia ainda quem resistisse à ideia de um representante de Bolsonaro, um líder que é visto como adotando uma postura contra o fortalecimento do multilateralismo.

Além disso, havia um temor de governos da região de que seu nome brasileiro fosse uma forma de o governo americano ter apoiadores dentro do projeto de inquérito. Teich, por sua parte, não compartilhava a posição do presidente Bolsonaro ou do chanceler Ernesto Araújo de rejeição a um papel maior da OMS.

O comitê, além dos dois latino-americanos, será composto por Aya Chebbi (Tunísia), Mark Dybul (EUA), Michel Kazatchkine (França), Joanne Liu (Canadá), Precious Matsoso (África do Sul), David Miliband (Reino Unido), Thoraya Obaid (Arábia Saudita), Preeti Sudan (Índia) e o chinês Zhong Nanshan.