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OMS: acordo isolado de países com farmacêuticas dificulta fim da pandemia

Ministro interino da Saúde, general Eduardo Pazuello, em Brasília -
Ministro interino da Saúde, general Eduardo Pazuello, em Brasília
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

10/09/2020 08h40

Resumo da notícia

  • Aliança mundial de vacinas tem nesta quinta-feira seu primeiro encontro.
  • Brasil fará parte do conselho da aliança, com ministro Eduardo Pazuello

A OMS usa a primeira reunião do conselho da aliança mundial de vacinas para fazer um alerta: iniciativas bilaterais de governos em acordos com a indústria farmacêutica podem dificultar o fim da pandemia. Um desses acordos foi estabelecido pelo Brasil com a AstraZeneca.

A crítica ao "nacionalismo" foi feita pelo diretor da entidade, Tedros Ghebreyesus, que apontou que a aliança mundial conta hoje com menos de 10% do dinheiro que precisa para garantir a distribuição do futuro produto em todas as partes do mundo.

A avaliação da OMS é de que, ao estabelecer acordos bilaterais, países com recursos podem garantir a vacinação para uma parte de sua população. Mas criam obstáculos para um plano global de produção.

Para a entidade, a pandemia apenas chegará ao fim quando todos estiverem protegidos. Caso contrário, a ameaça continuará a existir.

Tedros indicou que a velocidade no desenvolvimento de produtos é "testamento do avanço da ciência". Mas ele aponta que seus benefícios não ocorrerão se não houver um aumento de dinheiro e um compromisso de agir de forma global.

"Acordos bilaterais e o nacionalismo podem impedir avanço para terminar pandemia", disse. "O desafio é monumental", insistiu.

Brasil faz parte do Conselho

A aliança foi criada em abril e, agora, uma estrutura formal foi estabelecida. O Brasil foi convidado para fazer parte do conselho do grupo, ao lado de outros 24 países. O presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa e a primeira-ministra da Noruega, Erna Solberg vão coordenar os trabalho. Para a escandinava, a falta de recursos é "enorme" para que a aliança possa funcionar.

Vacina não é panaceia, diz chefe da ONU

Antônio Guterres, secretário-geral da ONU, usou o evento ainda para alertar que a maior ameaça à segurança mundial é o vírus. Mas ele alertou que governos precisam agir com medidas de saúde."Muitos têm esperança na vacina. Mas vamos ser claros: não existem panaceias nessa crise", disse. "Sozinha, a vacina não pode resolver essa crise, certamente não no curto prazo", disse.

Seguindo o mesmo recado de Tedros, o chefe da ONU alertou que o mundo encara hoje "uma escolha política importante": o aumento de recursos para a cooperação global.

Guterres indicou que, até agora, a aliança recebeu menos de US$ 3 bilhões. "Mas precisamos agora de US$ 35 bilhões a mais", disse. Nos próximos três meses, serão necessários US$ 15 bilhões. Caso contrário, a janela de oportunidade para lidar com a pandemia vai se fechar.

O chefe da ONU ainda criticou o nacionalismo e alertou que tais acordos bilaterais serão contraproducente, inclusive para aqueles que adotam tais posturas.

Segundo ele, há uma proliferação de acordos bilaterais. "Precisamos superar a tendência preocupante de iniciativas paralelas e esforços com focos nacionais", disse. Para Guterres, isso "mina a resposta global".

"Ou ficamos juntos, ou estaremos condenados e nos desfaremos", alertou.

Guterres ainda indicou sua preocupação com a desconfiança de parte da população para tomar vacinas, abrindo espaço para teorias da conspiração.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL