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Bolsonaro usa ONU para fazer campanha para Trump, que não cita o Brasil

Bolsonaro discursa na ONU e fala sobre combate à Covid-19 e política ambiental  - Reprodução
Bolsonaro discursa na ONU e fala sobre combate à Covid-19 e política ambiental Imagem: Reprodução
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

22/09/2020 11h25

Desta vez, não houve um encontro nos corredores da ONU (Organização das Nações Unidas) para que uma declaração de amor fosse feita entre Jair Bolsonaro e Donald Trump.

Mas ainda assim a mensagem de compromisso foi mantida e o coração continua acelerado. O presidente brasileiro usou seu discurso na ONU para fazer campanha pelo americano, que tenta a reeleição. Em sua alocução que marca a abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas, Bolsonaro citou apenas um líder, Trump, e listou as ações da Casa Branca pelo mundo.

Nos últimos dias, o governo brasileiro tem assumido a função explícita de dar apoio para a campanha eleitoral de Trump. Brasília cedeu em temas comerciais para ajudar o americano em setores estratégicos e ofereceu sua fronteira com a Venezuela para que o secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, acenasse aos votos latinos pelos Estados Unidos.

Agora, uma vez mais, o momento do discurso na ONU foi transformado em um instrumento nesse esforço.

Bolsonaro elogiou o plano de paz da Casa Branca para Israel e Palestina, além de aplaudir o acordo entre Israel e Emirados Árabes Unidos.

"Os acordos de paz entre Israel e os Emirados Árabes Unidos, e entre Israel e o Bahrein, três países amigos do Brasil, com os quais ampliamos imensamente nossas relações durante o meu governo, constitui excelente notícia", disse.

"O Brasil saúda também o Plano de Paz e Prosperidade lançado pelo presidente Donald Trump, com uma visão promissora para, após mais de sete décadas de esforços, retomar o caminho da tão desejada solução do conflito israelense-palestino. A nova política do Brasil de aproximação simultânea a Israel e aos países árabes converge com essas iniciativas, que finalmente acendem uma luz de esperança para aquela região", afirmou.

O brasileiro também citou o "óleo venezuelano" e defendeu a reforma da Organização Mundial do Comércio, uma outra pauta dos EUA.

O presidente ainda defendeu outra agenda liderada pelos americanos: a liberdade religiosa e a defesa do cristianismo.

Se Bolsonaro fez questão de sinalizar seu apoio incondicional ao presidente americano, Trump sequer citou o Brasil.

Ao longo de seu discurso, o governo brasileiro ainda usou o palco internacional para deixar claro que a questão da soberania é um fator fundamental em sua postura e buscou transformar a pressão internacional contra o país em um ataque externo sofrido pelo país.

O Brasil, por sua interpretação, estaria sendo alvo de uma operação internacional que visa a enfraquecer a agricultura do país. Ao criar um inimigo externo, ele adota uma postura para deslegitimar as críticas e, para seus apoiadores, amplia teses de conspiração.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL