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Jamil Chade

OMS: vírus mergulha mundo em "período difícil" e ameaça 90% do planeta

Pessoas usam máscaras de proteção em Nantes, na França -
Pessoas usam máscaras de proteção em Nantes, na França
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

05/10/2020 08h43

A pandemia não dá sinais de perder força e o mundo entra em um "período difícil". Um levantamento publicado nesta segunda-feira pela OMS estima que apenas uma parcela de 10% da população mundial foi atingida pela covid-19, o que significa que a grande parte do planeta continua sob ameaça do vírus. Mas a análise também sinaliza que a expansão da doença continua, principalmente numa segunda onda de contágios em países que acreditavam ter superado a pior fase da pandemia.

Os números e avaliações foram apresentados em Genebra por Mike Ryan, diretor de operações da OMS, durante a reunião do Comitê Executivo da agência.

Segundo ele, a pandemia "continua a evoluir" e "uma vez mais está em alta no hemisfério Norte". Além dos novos casos na Europa, o Sudeste Asiático também registra um salto no número de pessoas infectadas nos últimos dias. "Estamos entrando numa fase difícil e precisamos avaliar como agir. Temos mais conhecimento. Mas precisamos avaliar os próximos passos", admitiu. Pela Europa, cidades como Madri, Paris e outras voltaram a implementar medidas de controle e fechar bares e restaurantes.

"O vírus infectou 10% de população do planeta. O que significa é que o mundo continua sob risco", disse Ryan. "Temos os instrumentos e conhecimentos para lidar com ela. Mas o futuro depende de como escolhermos usar esses instrumentos", alertou. Segundo ele, "muitas mortes poderiam ter sido evitadas e muitas outras ainda podem ser evitadas".

Análise do diretor foi considerada por governos em Genebra como uma ducha de água fria em narrativas de que a crise estaria perdendo sua força.

Tedros Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, usou o encontro para pedir um minuto de silêncio aos mais de 1 milhão de mortos. Mas deixou claro que "o número real é maior", inclusive diante dos dados oficiais de 34 milhões de pessoas infectadas. Por semana, ele estima que 2 milhões de pessoas são contaminadas.

De acordo com ele, nem todos no mundo reagiram da mesma forma. Dez países representam 70% dos casos e de mortes, enquanto apenas três representam metade. Um deles é o Brasil.

"Nem todos os governos responderam a da mesma forma" disse Tedros. "Alguns agiram rapidamente. Outros tiveram surto, mas controlaram. Há um terceiro grupo que, ao reabrir suas sociedades, viu uma volta do número de casos. E existe ainda um quarto grupo de países que ainda vive uma fase de intensa transmissão", explicou.

Aos governos, Tedros insistiu que "nunca é tarde demais para mudar a direção" da pandemia num país, sempre que haja "liderança e coerência".

A OMS ainda apresentou três prioridades até o final de 2020. A primeira delas é a de preencher o buraco financeiro para permitir que o consórcio global de vacinas possa funcionar. Hoje, o déficit é de US$ 34 bilhões.

"A história não nos poupará ao avaliar como tanto dinheiro foi destinado a pacotes nacionais e não tivemos recursos para uma ação global", afirmou Tedros. Segundo ele, o mundo precisaria de apenas 1% do que governos destinaram a pacotes de resgate ou duas semanas de gastos com cigarros.

Mas a OMS também insiste que a prioridade até o final do ano deve ser a de manter medidas de distanciamento social, uso de máscaras e testes. "Isso funciona. Já está provado", declarou.

Por fim, ele pediu solidariedade. "Acusar uns aos outros não vai salvar vidas. O que salva é solidariedade e união", disse.

"No lugar de gastar energia uns contra os outros, temos de lutar contra o vírus. 75 anos depois da criação da ONU, nunca a ação conjunta foi tão necessária como agora", completou.