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Jamil Chade

Número de pessoas em favelas cresceu no mundo, mas no Brasil, caiu, diz ONU

População brasileira vivendo em favelas diminuiu proporcionalmente em 20 anos, na contramão da África -
População brasileira vivendo em favelas diminuiu proporcionalmente em 20 anos, na contramão da África
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

31/10/2020 07h00

Resumo da notícia

  • Depois de melhorias entre os anos 1990 e 2010, a taxa de pessoas vivendo em favelas voltou a crescer nos últimos anos
  • Para a agência da ONU, com 1 bilhão de pessoas nesses locais, implementação de recomendações para lutar contra a covid-19 é inviável
  • No Brasil, números sofreram queda importante nos últimos 30 anos. Mas 27 milhões de pessoas continuam vivendo em favelas

Um levantamento realizado pela Organização das Nações Unidas (ONU) com informações reunidas até 2018 revela que, apesar dos esforços em diferentes países para garantir a melhora das condições de moradia, o mundo conta hoje com mais de 1 bilhão de pessoas vivendo em favelas.

Os dados estão sendo publicados neste sábado e indicam que 803 milhões já viviam em favelas no ano 2000, de acordo com o Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos, a ONU-Habitat. Em 2016, pela primeira vez, o mundo atingiu a marca de 1 bilhão de pessoas em favelas. Nos dois anos seguintes, mais 30 milhões de pessoas passaram a viver nessas condições.

A grande responsável pelo aumento em números absolutos é a África, onde havia 131 milhões de favelados no começo do século, situação hoje de 237 milhões de pessoas no continente. Puxado pelo Brasil, a América Latina caminhou num sentido contrário e reduziu o número de habitantes em favelas de 115 milhões no ano 2000 para 109 milhões em 2018.

De fato, os números revelam um avanço no caso brasileiro. Em 1990, 36,7% da população urbana vivia em favelas. A taxa cai para 26,9% em 2010 e para 15,2 % em 2018. Em termos absolutos, os números também revelam uma queda, apesar da expansão da população brasileira. Em 1990, 40 milhões viviam nessa situação, contra 27 milhões em 2018.

A avaliação da ONU é de que, diante dos números, uma parcela importante da população mundial simplesmente não tem como cumprir algumas das principais recomendações da OMS diante da pandemia de covid-19, como isolamento e higiene pessoal.

"As favelas representam uma das faces mais duradouras da pobreza, da desigualdade, da exclusão e da privação", alertou o informe. "Sob tais condições, o distanciamento físico, o auto-isolamento, a lavagem das mãos e níveis aceitáveis de higiene, que são medidas importantes contra a doença da covid-19, são praticamente impossíveis", indicou.

"Não está claro como pode ser mantido o distanciamento físico na favela de Dharavi em Mumbai (Índia), que tem uma densidade populacional de 270 mil pessoas por quilômetro quadrado", apontou o informe, como exemplo, ainda citando campos de refugiados.

A ONU estima que, em 2017, cerca de 1,4 bilhão de pessoas em todo o mundo não tinham torneiras para lavar as mãos em casa. "Nos países menos desenvolvidos, cerca de três quartos da população não tinham instalações de lavagem de mãos com água e sabão", alerta o levantamento.

População vivendo em favelas deve aumentar

Para as Nações Unidas, se nada mudar, o número absoluto da população mundial que viverá em favelas vai crescer. "A análise empírica mostra que um aumento de 1% no crescimento da população urbana aumentará a incidência de favelas na África e na Ásia em 2,3% e 5,3% respectivamente", destacou a organização, alertando sobre urbanização feita sem planejamento.

O aumento da pobreza, agravamento do desemprego, municípios fracos e com poucos recursos, estruturas de governança deficientes e a ausência de políticas coerentes de planejamento urbano e habitação são elementos de uma "receita para a proliferação de favelas".

"Sem uma ação concertada por parte dos governos em todos os níveis, incluindo a sociedade civil e parceiros de desenvolvimento, o número de moradores de favelas continuará a aumentar na maioria dos países em desenvolvimento", completou a ONU.

Depois de uma queda importante entre 1990 e 2000, quando a taxa chegou a 28% no que se refere à proporção de pessoas vivendo em favelas. A partir de 2010, porém, os avanços pararam e a taxa se estagnou no mundo. A partir de 2014, um aumento foi registrado, passando gradualmente de 23% para 24% em 2018.

Em comparação ao total de pessoas vivendo em zonas urbanas, houve uma queda no percentual dos moradores de favelas de 28% para 24% entre o início do século e 2018. Mas a redução é considerada como modesta e insuficiente para um período de praticamente 20 anos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL