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Jamil Chade

Reação de Trump é presságio para eleição no Brasil em 2022, diz Boaventura

O "sociólogo  Boaventura de Sousa Santos - Scarlett Rocha
O 'sociólogo Boaventura de Sousa Santos Imagem: Scarlett Rocha
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

08/11/2020 04h00

Forças políticas, instituições e a sociedade no Brasil precisam se preparar: em 2022, a eleição presidencial no país corre o sério risco de repetir o cenário promovido por Donald Trump nos EUA neste ano. Nos últimos dias, o americano optou por tumultuar o processo eleitoral, proliferar acusações falsas de fraude e corrupção, além da recusa de aceitar os resultados da votação.

O alerta é do sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e da Faculdade de Direito da Universidade de Wisconsin-Madison, nos EUA.

Em entrevista à coluna, o especialista avaliou a recusa de Trump de aceitar sua derrota e como o gesto representa uma ameaça à democracia. Mas deixa claro que o ato pode se repetir em 2022, no Brasil.

Boaventura de Souza Santos, nos últimos 35 anos, divide sua vida entre Portugal e os EUA. Em 2021, ele publica no Brasil seu livro mais recente "O futuro começa agora: Da Pandemia à Utopia". (Boitempo)

Eis os principais trechos da entrevista:

Como o sr. explica a situação social nos EUA hoje?

Existiu, ao longo dos 35 anos que eu estou nos EUA, uma degradação de um processo democrático, da sociedade em si mesmo. Cheguei aos EUA num momento em que havia a vibração da luta contra a guerra do Vietnã, do movimento dos direitos cívicos. Era uma sociedade americana extremamente vibrante em lutar pela redução da desigualdade. A partir dos anos 80, a sociedade se torna muito mais desigual e muitas das conquistas sociais foram anuladas.

O clímax dessa frustração ocorre quando Obama é eleito. Muita gente, e eu mesmo, choramos naquele dia de eleição. Era uma grande mudança que se previa. Mudanças ocorreram. Mas elas ficaram aquém do que era esperado. A dinâmica na sociedade estava imparável, no sentido de se transformar em uma sociedade disfuncional, mais polarizada e com o abandono total das classes populares.

Quando Obama chega ao poder, em plena crise de 2008, muitos acreditavam em uma virada. Obama iria finalmente defender as famílias e não os bancos. E, naqueles dias do início de seu mandato, ele chama para a Casa Branca um homem de Wall Street. Portanto, procurou salvar o sistema, e não as famílias. Esse foi o ponto de virada de uma frustração, de uma maior polarização na sociedade.

Nessa situação, as vítimas se viraram contra as vítimas. O poder é de tal maneira distante que parece inatacável. Assim, o operário branco pensa que seu maior inimigo é o operário igualmente pobre ou mais pobre, latino, negros ou imigrantes.

Isso explica a chegada de Trump ao poder?

É exatamente nesse caldo de uma política de ressentimento que ele chega ao poder. Trump era um homem do sistema que se apresentou como um homem anti-sistema, que vai renovar a política, limpar o pântano. Ele chega com uma política radical de contestação do sistema democrático, com uma retórica violenta para uma parcela que estava abandonada e que acreditava que quem tinha retirado seus direitos foram os negros que passaram a mandar seus filhos para as universidades, que tinham construído uma classe média. Eram aqueles que se sentiam ressentidos.

Trump, portanto, se apresentou como um porta-voz deles. Ele chega ao poder numa aliança do grande capital financeiro com essas classes populares que se sentiam fraudados pelo sistema. Ao longo dos quatro anos, essa foi sua base, que varia entre 30% e 40%.

E agora voltaram a votar nele?

Eles se mantiveram fieis a ele. Trump foi o primeiro presidente a não governar para os EUA. Mas para essa população de sua base. Tudo o que ele faz é para eles. E essa base está nas ruas, alguns com armas nas mãos para defender sua presidência, qualquer que seja o resultado.

Ao longo do tempo, ele foi mostrando a fragilidade de um homem que é um desequilibrado e que não estava preparado para governar. E um país que vive uma situação de um império em decadência. A história mostra que os impérios em decadência são governados por figuras caricaturais. O que vemos neste momento é o resultado de uma degradação democrática que ocorreu ao longo dos últimos quatro anos.

Como deve ser entendido o gesto de Trump de contestar a eleição?

Ele já tinha avisado. Na verdade, ele não é o único. Jair Bolsonaro já tinha feito o mesmo antes da eleição de 2018. As classes sociais continuam tão abandonadas como antes, os salários estão estagnados, o desemprego é gigantesco e Trump teve de aumentar a violência retórica para poder disfarçar o golpe final na competência nele, que foi a forma pela qual administrou a pandemia. A forma que ele encontrou foi o negacionismo e, depois, intensificar a guerra fria contra a China.

Com todas as câmeras do mundo viradas para os EUA, a grande vingança de Trump é transformar isso em um reality show. Mas esse reality show é algo que custa e pode custar caro à democracia dos EUA. Isso tudo é extremamente perigoso para a democracia. Os aspirantes a ditadores tiveram um curso intensivo de como se destrói a democracia. Agora tiveram um desgosto, já que o professor deles foi reprovado e agora terão de repensar suas estratégias autoritárias.

Por um lado, portanto, a democracia está sendo ameaçada. Mas, ao mesmo tempo, ela mostra sua vitalidade. Veja o que a imprensa fez ao suspender a transmissão de um discurso de Trump, que dizia mentiras.

Mas existem ainda casos na Justiça.

Claro. Mas tem perdido um caso após o outro, e muitos com juízes republicanos. O que significa que mesmo seu campo chegou à conclusão de que esse homem é um embaraço a eles.

O que estamos vendo com a reação de Trump poderemos ver em outras partes do mundo ou no Brasil em 2022?

Não tenham dúvidas. Isso é uma escola e, para mim, Bolsonaro é um dos alunos mais aplicados. Ele está vendo como se destrói uma democracia e por ver que as instituições brasileiras não são tão fortes para poder defender a democracia, como já vimos na Lava Jato. Os sinais que estamos tendo é que as instituições norte-americanas são fortes suficientes para poder travar esse gesto autoritário.

Bolsonaro é uma caricatura tropical de Trump. Tem o mesmo discurso, lidou a pandemia com negacionismo. Nos EUA, Trump deixou o negacionismo para usar a estratégia do bode expiatório. No Brasil, esses bodes expiatórios foram os governadores democráticos. Isso foi a forma de encobrir sua incompetência, que ficou claro. Esses governantes de extrema-direita são muito bons em destruir. Mas não sabem construir.

Bolsonaro está encontrando uma fórmula que pode ser muito útil. É preciso polarizar a sociedade, violar regras éticas. Nos EUA, Trump sabe que muita gente ressentida quer alguém que diga por eles que são racistas, sexistas. No Brasil é a mesma coisa. Há muita gente que quer que alguém diga isso por eles. E quando um presidente diz isso por eles, tem muito poder. Bolsonaro está aprendendo para usar no seu país, inclusive em 2022.

Em certos momentos, a escolha não é sobre duas opções democráticas.

O Brasil precisa se preparar, então, para 2022?

Sim. O Brasil precisa se preparar. Seria muito bom que sistema judiciário fizesse uma reflexão sobre seu papel nestes anos. Está claro que houve uma montagem para neutralizar um candidato que poderia ganhar a eleição e entregar o governo ao outro candidato. O sistema judiciário está mostrando alguma distância. Não na questão do medo econômico. Mas o STF começou a agir quando passou a ser atacado para colocar um pouco de mote a1 deriva autolatria de Bolsonaro.

A classe política e todos os partidos que tenham interesse genuíno na democracia que sirvam a democracia e não se sirvam da democracia, avaliem o cenário. Infelizmente temos visto que direita brasileira serve-se mais da democracia que serve a ela. Deveriam ter usado a ocasião - e a tiveram - para promover o impeachment. Poderiam ter feito.

Mas as forças de esquerda também não estão se preparando. Continuam pensando que Bolsonaro fosse um líder como outro qualquer e que ganhou as eleições. Não é assim. O princípio desses autoritários é que, quando conquistam o poder, nunca querem perder. Inclusive por vários deles terem de enfrentar a Justiça. Não é uma situação normal. Estamos numa emergência democrática no Brasil. Os fascistas, se não estão no poder, estão à caminho do poder. E isso obrigaria a uma unidade anti-fascista, evitar dogmatismos e, antes de 2022, alterar a conjuntura. Isso pode ocorrer em São Paulo, Rio e Porto Alegre, nas eleições municipais.