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Jamil Chade

Reino Unido mira alimento produzido em desmate ilegal e pode afetar Brasil

Endurecimento de regras no país europeu deve gerar "pente-fino" na importação de produtos do Brasil como soja, carne, cacau e outros - Ricardo Moraes/Reuters
Endurecimento de regras no país europeu deve gerar "pente-fino" na importação de produtos do Brasil como soja, carne, cacau e outros Imagem: Ricardo Moraes/Reuters
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

12/11/2020 04h00

Exportar soja, carne, cacau ou madeira para o Reino Unido pode ficar mais difícil para o Brasil. Nesta quarta-feira, o governo de Boris Johnson apresentou uma lei para impedir que empresas britânicas comercializem commodities que estejam relacionadas com o desmatamento ilegal em qualquer parte do mundo.

Na prática, a lei vai exigir que supermercados britânicos, empresas de alimentos ou qualquer outro negócio com sede em Londres sejam transparentes sobre a origem dos produtos que compram. Outros produtos que terão maiores controles incluem óleo de palma, couro, borracha e papel.

Com isso, os importadores britânicos terão de ter mais cautela sobre a origem de seus produtos e garantir que não venham de áreas desmatadas de forma ilegal.

Para ativistas e ambientalistas, a lei não é dura suficiente. Esses grupos defendiam que o Reino Unido colocasse um freio a qualquer importação que pudesse representar um desmatamento, mesmo aquele que ocorresse dentro da lei.

De acordo com os estudos realizados pelos britânicos, o desmatamento de florestas tropicais representa 8% das emissões de CO2 hoje. De acordo com o governo de Londres, 50% do desmatamento nesses locais ocorre de forma ilegal para abrir espaço para a agricultura e exportação de madeira.

Ao apresentar a nova lei, o ministro de meio ambiente, Lord Goldsmith, saiu em defesa da proteção das florestas e indicou que o mundo dependia delas. "Protege-las é nossa prioridade fundamental", disse.

Aliança de países protetores de florestas

Segundo ele, a medida faz parte de um pacote mais amplo de novas leis ambientais. "Nossa intenção não é apenas tomar medidas internas, mas construir uma aliança global de países empenhados em trabalhar em conjunto para proteger as florestas preciosas do mundo"", disse.

A esperança do governo de Boris Johnson é de usar o pacote para servir de exemplo para outros países antes da próxima conversação da ONU (Organização das Nações Unidas) sobre o clima, A COP 26, programada para 2021.

O setor privado britânico indicou seu apoio ao projeto, concluído depois de várias semanas de consultas com os diferentes atores sociais e econômicos. "Saudamos estas novas medidas como um importante primeiro passo para a criação de condições equitativas no Reino Unido, alinhadas com o objetivo da Tesco de desmatamento zero. Esperamos que isto encoraje todas as empresas a fazer a coisa certa", disse Jason Tarry, CEO da Tesco UK e Irlanda.
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Uma parte das organizações ambientais aplaudiu o pacote de leis. Mas nem todos acreditam que as medidas sejam suficientes. Para o Greenpeace, as medidas não vão conseguir frear o desmatamento.

"Para que esta nova lei seja adequada ao fim a que se destina, todo o desmatamento, e não apenas o desmatamento ilegal, deve ser excluído", disse. "E devem ser impostas sanções mais fortes, tais como a proibição de produtos que entrem no mercado se não se provar que estão livres de desmatamento e de violações dos direitos humanos ao longo de toda a cadeia de abastecimento", completou.

A entidade Friends of the Earth também criticou o projeto, alertando a lei pede apenas o "mínimo".