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Jamil Chade

Queda de 73% do PIB e covid-19 aprofundam drama de refugiados venezuelanos

Apesar de fronteiras fechadas e pandemia, venezuelanos desesperados tentam retornar à Colômbia - STRINGER/REUTERS
Apesar de fronteiras fechadas e pandemia, venezuelanos desesperados tentam retornar à Colômbia Imagem: STRINGER/REUTERS
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

01/12/2020 02h02


O raio-x mundial preparado pela ONU sobre a crise humanitária revela que a situação de refugiados e imigrantes venezuelanos pela América do Sul atinge "níveis alarmantes". Mas o levantamento também constata que essa população está abandonada pela comunidade internacional, que não tem repassado recursos para lidar com a crise envolvendo milhões de pessoas vivendo no Brasil, Colômbia ou Peru.

Em 2020, a ONU pediu US$ 762 milhões para ajudar 7 milhões de pessoas dentro da Venezuela. Mas recebeu apenas 20% dos recursos solicitados. Para lidar com a crise de 6,1 milhões refugiados venezuelanos pela região sul-americana, a ONU solicitou outros US$ 1,4 bilhão. Mas conseguiu apenas 44% do valor.

Para 2021, a entidade estima que precisará dos mesmos valores, tanto para os refugiados em diversos países sul-americanos como para sair ao socorro de venezuelanos dentro do país.

Segundo a ONU, os sete anos consecutivos de contração econômica, episódios de hiperinflação, polarização política e desafios institucionais têm sido os principais motores das necessidades humanitárias na Venezuela. "Estima-se que a economia tenha se contraído em 74% desde 2013, levando à diminuição dos gastos públicos e impactando a prestação de serviços essenciais", alertou. "A renda das pessoas, a poupança e o poder de compra também foram severamente afetados", disse.

No início de 2020, a situação humanitária parecia estar se estabilizando. "Uma série de medidas econômicas liberalizadoras deu um alívio à economia e ajudou a conter a inflação. O aumento das remessas de dinheiro proporcionou uma linha de salvação para muitos e a resposta humanitária contribuiu para atender a algumas das necessidades mais agudas", indicou.

Mas essa tendência foi revertida pela COVID-19 e "agravada pelo aumento dos custos de alimentos e itens não-alimentícios essenciais, declínio das remessas e redução dos preços globais do petróleo".

"As dificuldades para as pessoas vulneráveis aumentaram e novas necessidades surgiram", lamentou. Para 2021, o impacto da covid-19 vai continuar. As estimativas apontam que, só em 2020, o PIB sofreu uma contração de 26%, resultando no aumento das taxas de pobreza e na redução adicional dos serviços essenciais.

Se a fome já era uma realidade para milhões de pessoas, em 2020 ela ganhou um contorno ainda mais dramático.

Em 2019, estimava-se que 2,3 milhões de venezuelanos estavam em grave insegurança alimentar e mais 7 milhões de venezuelanos moderadamente inseguros em relação aos alimentos. "A taxa de subnutrição aumentou de 2,5% em 2010-2012 para 31,4% em 2017-2019", destacou a ONU.

Não por acaso, a crise venezuelana levou "ao maior movimento de refugiados e migrantes da história recente da América Latina".

Dos cerca de 5,5 milhões de refugiados e migrantes da Venezuela deslocados pelo mundo, cerca de 4,6 milhões estão alojados só na região sul-americana, incluindo um número estimado de 1 milhão com estatuto irregular.

Apesar de a resposta da região ter sido mantida mesmo com a pandemia, a ONU estima que "a situação já precária de muitos refugiados e migrantes da Venezuela e das comunidades de acolhimento está atingindo níveis alarmantes". "As capacidades nacionais e locais têm sido perigosamente limitadas devido ao impacto contínuo da COVID-19 na América Latina, ameaçando o tecido social", alertou.

Fluxo migratório nos dois sentidos

O raio-x também revela que, diante da pandemia no Brasil, Peru e outros países da região, a realidade é que muitos dos venezuelanos que estavam fora tentaram retornar para Caracas. "Cerca de 130 mil migrantes venezuelanos retornaram dos países vizinhos desde meados de março - a maioria devido à perda de seus meios de subsistência no contexto da COVID-19", diz a ONU.

"Numa região caracterizada por elevados níveis de trabalho informal, a implementação de medidas destinadas a travar a propagação da COVID-19 (incluindo encerramentos de fronteiras, lockdowns, recolher obrigatório e outras medidas de quarentena) teve um impacto grave nos refugiados e migrantes. Sem economias ou redes alternativas de segurança social, muitas pessoas não conseguem cobrir as necessidades básicas ou aceder a serviços vitais devido à perda de emprego", informou o documento.

Mas aqueles que tentaram retornaram foram obrigados a permanecer em quarentena em abrigos temporários administrados pelo governo, muitos dos quais necessitam de apoio.

O fluxo no sentido contrário, porém, não parou. Mesmo com as fronteiras fechadas, um número crescente de venezuelanos tem atravessado para os países vizinhos através de rotas irregulares. O problema, nesse caso, é que ficam reféns de grupos criminosos que organizam a travessia, com práticas de chantagem e extorsão ao longo dessas rotas.

"É provável que um padrão de fluxos migratórios mistos continue com mais venezuelanos retornando e deixando o país em 2021", estima a ONU. "Se as fronteiras permanecerem fechadas, as pessoas continuarão usando rotas irregulares e serão expostas a riscos, incluindo um risco maior de tráfico, violência sexual e exploração, especialmente para mulheres e crianças", constatou.

A ONU destaca que alguns países de fato incluíram venezuelanos em programas de assistência social postos em prática durante a pandemia. Mas eles não foram suficientes e o temor é de que a tensão social entre as populações dos países que recebem os estrangeiros e os venezuelanos aumente.

"A xenofobia e a estigmatização estão aumentando, muitas vezes com base em percepções negativas associadas ao medo de espalhar o vírus e ao aumento das taxas de despejo e de desalojamento, levando a um ciclo vicioso de irregularidade, vulnerabilidade, destino e estigmatização", alertou.