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Jamil Chade

Minha lista de notícias positivas de 2020

Mão segurando o planeta Terra - Getty Images
Mão segurando o planeta Terra Imagem: Getty Images
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

23/12/2020 04h00

O ano de 2020 marcará a história da humanidade. Haverá um antes e um depois, tanto para milhões de famílias como em termos políticos e sociais. Para alguns, o ano inaugura o século 21. Para outros, encerra de vez a ideia de que um mundo infinito. Previsões revelam que, em 2021, o planeta corre o risco de ver a pior crise humanitária desde a Segunda Guerra Mundial. 40 anos anos de avanços sociais podem ser desfeitos.

Mas se 2020 constata a fragilidade dos sistemas de saúde e revela o fracasso de líderes políticos supostamente fortes, o ano também trouxe notícias positivas. Ficou evidenciado neste ano que nacionalismo, isolacionismo e negacionismo não darão a resposta. O ano deixou claro que todo populismo mata e que existe um limite para o que vendedores de ilusões podem atingir.

Neste momento de incerteza, dor, distância e medo, a humanidade também se mostrou genial, altruísta, persistente e corajosa. Como desbravadores, uma parcela das sociedades decidiu enfrentar os monstros desenhados em mapas com rotas para destinos desconhecidos.

Sim, tivemos boas notícias em 2020. Ainda que incipiente e ameaçada ainda pelo que poderá ocorrer nos próximos anos, aqui vai minha lista de fenômenos e conquistas de um ano que ficará marcado em nossa geração.

A ciência vence

Num tempo recorde e superando todas as previsões, o mundo termina 2020 com diversas vacinas no horizonte contra a covid-19. Se até pouco tempo eram necessários de oito a dez anos para garantir que um produto desses chegasse ao mercado, estamos vendo diante de nós uma revolução na ciência. Além dos produtos já aprovados, mais de 300 candidatas continuam sendo testadas para que possam imunizar a população mundial. Se não bastasse, mais de mil tratamentos estão sendo desenvolvidos.

Essa é sim a vitória da ciência, contra tudo e todos que tentam questionar o que ela a seus dedicados pesquisadores conseguem nos apresentar.

E não foi apenas a covid-19 que ressaltou o papel da ciência. Em junho, o mundo viu o primeiro olho com uma retina 3D. A inovação da Universidade de Hong Kong abre uma nova possibilidade para milhões de pessoas. Também foi em 2020 que cientistas na Austrália indicaram os primeiros resultados positivos para uma futura vacina contra o câncer.

Certamente o grande desafio é o de garantir que tais inovações não se limitem aos países ricos ou a pacientes que tiveram a sorte de terem nascido em um lugar, e não em outros. Mas o ano de 2020 também revelou que uma parcela da humanidade não está mais disposta a aceitar a estrutural social tal como ela é. Na OMS, por exemplo, pela primeira vez um plano de vacinação global é acompanhado por um mecanismo que tem a meta ambiciosa de garantir o acesso dos mais pobres aos mesmos tratamentos que são oferecidos aos ricos.

Não há garantias ainda de que funcione e nem de que será financiado de forma suficiente. Países ricos esvaziaram prateleiras de vacinas, deixando bilhões de pessoas uma vez mais na fila da história. Mas, de forma inédita, há um esforço real para que tal iniciativa não seja apenas para alguns poucos. Em 2021, essa ambição será testada.


Agenda ambiental sai fortalecida

Dos canais de Veneza ao ar das grandes cidades, o mundo testemunhou o poder da natureza que, por algumas semanas, aproveitou da ausência de milhões de pessoas para ganhar terreno. Em alguns locais, a poluição do ar caiu em 65%, enquanto as emissões de CO2 recuaram e as tartarugas voltaram às praias até então ocupadas por turistas.

Nada disso é sustentável, inclusive diante do impacto social que esses mesmos lockdowns tiveram. Para entidades internacionais, tais eventos não são suficientes para reverter uma tendência de décadas. A concentração de CO2 na atmosfera atinge um nível recorde, enquanto a temporada de furacões em certas partes do mundo presencia uma onda inédita de eventos extremos. O ano ainda termina como o terceiro mais quente desde 1850.

Mas, ainda assim, tais sinais revelam a força dos ecossistemas e sua capacidade de reação.

Mais importante que isso, porém, é a existência de um número cada vez maior de governos e empresas assumindo a responsabilidade de garantir uma neutralidade de emissões até meados do século, incluindo a China, Facebook ou a Ford, enquanto Joe Biden também prometeu voltar ao Acordo de Paris no primeiro dia de seu mandato.

No total, a ONU estima que cidades ou regiões com emissões conjuntas superiores às dos EUA e empresas com uma receita combinada de US$ 11 trilhões assumiram tais compromissos.

O caminho é longo e não existem garantias de que tais medidas sejam suficientes. Mas, entre diferentes governos e no coração da diplomacia internacional, a covid-19 foi recebida como uma espécie de alerta de que a atual crise seja "a última chance" de iniciar um caminho para restabelecer a paz entre a sociedade e o planeta.


Justiça social pede espaço

Das cidades americanas a um movimento global de recusa à violência policial, 2020 também foi o palco de uma ação de revolta contra um sistema que havia abandonado bilhões de pessoas por décadas.

Black Lives Matter e outras iniciativas revelaram a força das ruas e a capacidade da sociedade em exigir transformações. Nos EUA, mas também no Chile ou nos bastidores dos debates diplomáticos na ONU, governos foram colocados na parede. A própria resposta à pandemia teve de incluir pacotes bilionários para garantir a renda de trabalhadores e reabriu o debate sobre a implementação da renda mínima, enquanto a operação que estava em curso para o desmonte de direitos básicos teve de ser freada em alguns locais do mundo.

Nas urnas, essas pautas pesaram, exigindo a mudança de constituições ou forçando candidatos a prometer mais direitos, e não menos.

2020 também revelou que o caminho é longo e há um claro uso da pandemia para ampliar violações aos direitos humanos, censura e outros ataques contra liberdades. Mas também deixou claro que o mercado, por si só, não sairá ao socorro dos famintos, desabrigados e doentes.

O ano recolocou na agenda o debate sobre o que significa a "segurança" de uma população. E essa resposta hoje passa pela manutenção e fortalecimento da saúde universal, e não apenas pela compra de caças ou armas.

Uma parcela da sociedade finalmente "descobriu" o valor de uma enfermeira, muitas das quais foram as responsáveis por segurar o telefone no último adeus a uma pessoa querida e isolada. As marcas das máscaras nos rostos ficaram estabelecidas como os traços modernos da coragem e solidariedade. "Descobriram" o valor do professor, da escola e até da água encanada. "Descobriram" a injustiça social profunda em cada ordem de ficar em casa. "Que casa?" perguntaram milhões pelo mundo.

A agenda social, assim, deu sinais de que pode ter começado a reconquistar seu espaço no debate político. Ficou claro que a vacina contra a fome, contra a desigualdade, se chama direitos humanos. Em 2020, a noção de solidariedade passou a estar relacionada com a sobrevivência. E ficou evidente que o oposto de pobreza não é riqueza. Mas justiça.