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Jamil Chade

OMS: 2º ano da pandemia pode ser "ainda mais duro" e Brasil preocupa

Anvisa decide no domingo sobre aval para vacinas e cobra documentos - Getty Images
Anvisa decide no domingo sobre aval para vacinas e cobra documentos Imagem: Getty Images
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

13/01/2021 14h45

Com números de mortes batendo recordes em diferentes países e uma transmissão de cinco milhões de novos casos em uma semana, a Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta que o segundo ano da pandemia pode ser "ainda mais duro" que o primeiro e cita, entre diversos países, a situação do Brasil entre os cenários que preocupam.

Em um evento nas redes sociais nesta quarta-feira, a entidade informou que, um mês depois do início da vacinação pelo mundo, 28 milhões de doses já foram administradas, em pouco mais de 40 países. Mas a agência insiste que serão necessários "semanas ou meses" até que as taxas de imunização comecem a ser refletidas na curva da pandemia.

"Estamos chegando ao final de um primeiro ano, entrando num segundo ano disso, e que pode ser ainda mais duro, dada a dinâmica da transmissão e alguns problemas que estamos vendo", disse Mike Ryan, diretor de operações da OMS.

"Em alguns países, vai ficar muito pior antes de melhorar", alertou Maria van Kerkhove, diretora técnica da agência.

"Temos em uma semana 5 milhões de novos casos, com metade deles nas Américas", disse Ryan. Segundo ele, o Hemisfério Norte ainda viveu nos últimos dias uma "tempestade perfeita", com frio, festas de final de ano e maior número de encontro entre pessoas, além da mutação do vírus que aumentou a transmissão.

Mas ele alerta que essa não é uma situação única aos países do Norte. "O Brasil e outros países no Sul veem grandes aumentos de casos", disse.

De acordo com os últimos dados da OMS, o Brasil sofreu um salto de 24% no número de novos casos e 23% no número de mortes na semana entre os dias 3 e 10 de janeiro, em comparação à semana anterior. "Isso exige uma atenção imediata", defendeu.

Na semana passada, os cinco países que relataram o maior número de casos foram os Estados Unidos (com 1.786.773 casos, um aumento de 35%), o Reino Unido (417.620 casos, um aumento de 22%), o Brasil (313.130 casos, um aumento de 24%).

O maior número de novas mortes nesta semana foi registrado nos EUA, com 20,6 mil; 6,2 novas mortes por 100 mil e um aumento de 20%. No Brasil, foram 6.049 novas mortes. Uma taxa de 2,8 novas mortes por 100 mil e um aumento de 23%.

Vacinação no shopping, no carro e no estádio

Tanto Ryan como Maria insistem que a vacina será de enorme ajuda. Mas alertam que é cedo para ver qualquer impacto da imunização e pedem que medidas de distanciamento sejam mantidas.

"Vacinas vão fazer enorme diferença. Mas não estão aqui ainda. Temos semanas ou meses em que nosso conhecimento é nossa arma", disse Ryan. Para ele, indivíduos não podem ficar aguardando a ação de seus governos e precisam agir. "Cada um de nós precisa dizer: essa doença termina comigo", insistiu.

Carlos del Rio, reitor da Escola de Medicina da Universidade Emory, participou do evento e defendeu que governos levem as campanhas de vacinação para fora do sistema de saúde, justamente para poder chegar a um número maior de pessoas.

Ele conta como, nos EUA, um dos centros foi estabelecido em um shopping, usando as instalações de uma loja. Há também projetos para que campanhas ocorram em estádios e por meio de uma espécie de drive-in, no qual a pessoa sequer precisa sair do carro.

Segundo ele, num primeiro momento, o mundo precisará de seis, sete ou oito vacinas para conseguir uma ampla imunização.

Del Rio, porém, insiste que não está preocupado com a segurança das vacinas e que o maior risco é de que pessoas não se unam à campanha. "Não importa tanto qual vacina tomar. Mas que a pessoa tome uma vacina", disse. Para ele, os resultados divulgados nas últimas semanas por diferentes empresas mostram produtos "incrivelmente seguros".

Ryan, da OMS, insistiu que outro desafio será o de garantir vacinas também para os países mais pobres. Hoje, praticamente todos que iniciaram as campanhas de imunização são economias ricas. Para ele, empresas e governos precisam agir para garantir que essa distribuição ocorra.

"Vai ficar muito pior antes de melhorar"

Maria Van Kerkhove, diretora técnica, também martelou na tecla de que, ainda que a vacina seja um bom sinal, ela "não terá um impacto imediato. "Em alguns países, vai ficar muito pior antes de melhorar. E eles sabem quem são", disse.

Para ela, o aumento recente no número de casos é resultado das festas de final de ano e das férias. "Vimos um aumento dos encontros. Vimos pessoas comprando, viajando, encontrando a família. Se o vírus já circula, ele então se expande (com essa situação", disse. "Essa é a consequência do que ocorreu nas últimas semanas", lamentou.

Para a OMS, chegou o momento de governo ter planos concretos de como realizar a vacinação e como enfrentar os próximos meses. Para isso, precisam garantir recursos.

Desinformação mata

A entidade ainda fez um apelo para que governos e líderes não usem a crise como palanque para suas reputações. "Se tudo é por reputação, vão acabar levados pelas ondas para as pedras", alertou Ryan.

Para ele, a comunicação de governos foi fundamental na pandemia e teve um "enorme papel" na expansão da doença. Sem citar países, ele criticou quem usou a crise sanitária em uma lógica eleitoral ou política. "Estamos na batalha pela salvação dessa civilização", insistiu

Já Maria Van Kerkhove foi ainda mais direta. "Desinformação mata. Já matou e pode continuar a matar", completou

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL