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Jamil Chade

Para 1ª entrega, Brasil paga o dobro dos europeus por vacinas

Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

22/01/2021 10h01

Resumo da notícia

  • Preço cobrado por indianos é US$ 5,25, contra apenas US$ 2,10 no acordo entre AstraZeneca e UE
  • Informação do preço europeu foi revelada pela ministra do Orçamento da Bélgica em rede social
  • Explicação seria de que Europa financiou pesquisas e por isso paga menos, diz África do Sul
  • Sul-africanos também pagaram preço mais elevado do que o revelado pela ministra belga
  • AstraZeneca indica que apenas intermediou contato; Instituto Serum não explica preços diferentes

O governo brasileiro irá pagar ao Instituto Serum, da Índia, um valor mais de duas vezes superior ao que os países ricos da UE (União Europeia) destinaram para garantir as vacinas da AstraZeneca.

Depois de um desencontro entre os governos do Brasil e da Índia, os dois países anunciaram que um carregamento de 2 milhões de doses da vacina chegará ao país. O Instituto Serum é um dos centros capacitados pela AstraZeneca para produzir sua vacina.

Num comunicado do início de janeiro, a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) confirmou a negociação e indicou que o "instituto oferecerá as vacinas prontas ao mercado pelo valor de US$ 5,25 cada".

Nas últimas semanas, um suposto erro da ministra belga do Orçamento permitiu que os preços das diferentes doses de vacinas fossem revelados ao público europeu. De acordo com uma mensagem em suas redes sociais, Eva De Bleeker indicou que a UE teria negociado um preço de US$ 2,16 por dose da vacina da AstraZeneca. Questionado, o bloco se recusou a comentar, alegando que os acordos eram confidenciais.

Procurado para comentar o preço cobrado de Brasil e África do Sul, o Instituto Serum afirmou que não poderia conversar com o UOL.

Já a sede mundial da AstraZeneca até este momento não deu uma resposta, enquanto no Brasil a assessoria da empresa indicou que eles foram apenas mediadores entre a Fiocruz e a Serum, não se envolvendo na negociação.

A Fiocruz confirmou que esses foram os valores negociados e que, de fato, a AstraZeneca tinha sido a intermediária do contato com os indianos.

África do Sul passou por situação semelhante

Um caso similar de pagamentos de US$ 5,25 por dose da Serum foi identificado na África do Sul, que terá de pagar duas vezes mais que os europeus pela vacina. A informação foi publicada pelo jornal The Guardian, nesta sexta-feira.

Questionado, o governo sul-africano disse que o argumento que lhes foi passado era de que não tinham participado do processo de desenvolvimento da vacina. "A explicação que nos foi dada para que outros países de alta renda tenham um preço mais baixo é que eles investiram na pesquisa e desenvolvimento, daí o desconto no preço", disse Anban Pillay, representante da secretaria de Saúde do país.

A vacina continua sendo a mais barata hoje disponível no mercado e capaz de ser distribuída de forma mais simples. A AstraZeneca ainda indicou que está comercializando o produto por seu preço de custo.

No Brasil, a Fiocruz garante que não existe qualquer intenção de colocar essas doses à venda e que toda a importação ou produção é destinada ao sistema público de saúde.

Contrato do Brasil com a AstraZeneca fixou preço acima do revelado por belgas

No caso do Brasil, não serão apenas as doses indianas que podem custar mais caro. De acordo com um comunicado da Fiocruz de 26 de outubro de 2020, o contrato entre o Brasil e a AstraZeneca trata do abastecimento de mais de 100 milhões de doses.

No texto, a entidade cita o fato de o custo ter sido negociado em US$ 3,16 por dose, superior que foi divulgado pelos belgas para a UE.

O preço é mais baixo que o carregamento indiano, já que caberá aos brasileiros sua preparação para ainda poder comercializar.

O debate sobre os preços de vacinas tem dominado diferentes fóruns internacionais, entre eles a OMS (Organização Mundial da Saúde) e OMC (Organização Mundial do Comércio). As empresas, porém, insistem que seus contratos devem permanecer em algumas instâncias sob confidencialidade, mas garantem que estão oferecendo os produtos por um preço perto ou igual ao valor de produção.

A coluna revelou, no ano passado, que o contrato do governo federal com a AstraZeneca prevê que haverá uma renegociação do preço da vacina quando a pandemia terminar. Pelo contrato, fica estabelecido que é a empresa que determinará quando a crise termina.