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Jamil Chade

OMS: Vacina precisa ir para mais vulneráveis. Não para quem pode pagar

Pfizer descarta vender vacinas a empresas e diz ainda negociar com Brasil - Claudio Furlan/Dia Esportivo/Estadão Conteúdo
Pfizer descarta vender vacinas a empresas e diz ainda negociar com Brasil Imagem: Claudio Furlan/Dia Esportivo/Estadão Conteúdo
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

27/01/2021 09h53

A Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta que, diante de uma escassez de vacinas que irá durar pelo menos até meados de 2021, países devem se concentrar em destinar doses para aqueles mais vulneráveis, e não para quem pode pagar.

Nos últimos dias, diferentes grupos do setor privado brasileiro buscaram negociações com empresas farmacêuticas ou com laboratórios indianos para garantir um abastecimento que não passe por canais governamentais. Se inicialmente o Palácio do Planalto hesitava em liberar tais iniciativas, o governo de Jair Bolsonaro deixou claro nesta semana que não iria impedir tais acordos.

A busca por parte de grupos privados, porém, é alvo de forte resistência na OMS. A entidade não tem o poder de vetar compras e nem de interferir na forma pela qual um governo libera ou não vendas no mercado. Mas Kate O'Brian, representante da agência para temas relacionados com vacinas, insiste que governos deveriam seguir as recomendações elaboradas por especialistas reunidos pela OMS e que apresentaram propostas sobre como fazer a vacina ser mais eficiente.

A recomendação, costurada ainda no ano passado, sugere que idosos, pessoas com doenças crônicas e trabalhadores do setor de saúde precisam ser os primeiros a receber as doses. "A vacina deve ir onde ela é mais eficiente", insistiu a representante da agência, ao ser questionada pela coluna.

Espere a sua vez, alerta OMS

"Os governos devem olhar e ver como a vacina pode ter mais impacto num primeiro momento", disse. "Quem não estiver no grupo mais vulneráveis deve esperar sua vez (para ser vacinado)", alertou.

A estratégia estipulada pela OMS não representa uma obrigação aos países, que são soberanos para decidir como usar as doses. Mas o objetivo inicial é o de reduzir o número de mortes e internações, desafogando o sistema de saúde.

Para que isso seja possível, portanto, a orientação é de "seguir a ciência" e focar nos grupos mais atingidos. "Nossa política de propriedades é feita com base em evidências sobre o que seria mais eficiente", explicou. Segundo ela, a "implosão social" é resultado da gravidade da doença numa parcela específica da população.

Metade do salário por imunização

No início de janeiro, o Instituto Serum, o maior produtor de vacinas do mundo, anunciou que irá oferecer uma das vacinas ao mercado privado indiano, uma vez que a dose seja aprovada pelo governo. Mas o preço será cinco vezes maior e chegará a quase US$ 14 por dose.

Na Índia, porém, 60% da população vive com menos de US$ 3,10 por dia. De acordo com o Banco Mundial, 250 milhões de indianos ainda vivem com menos de US$ 2 por dia. Se essas pessoas não forem atendidas pelo governo, terá de destinar metade de sua renda mensal para garantir as duas doses de proteção.

Pela Europa, todas as vacinas têm sido compradas por governos e sua distribuição é gratuita.