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Jamil Chade

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Voto na Suíça revela que Mercosul terá dificuldade em ganhar apoio popular

Vice-presidente Hamilton Mourão conversa com ministros Ricardo Salles (Meio Ambiente) e Tereza Cristina (Agricultura) durante viagem à Amazônia  - Reprodução
Vice-presidente Hamilton Mourão conversa com ministros Ricardo Salles (Meio Ambiente) e Tereza Cristina (Agricultura) durante viagem à Amazônia Imagem: Reprodução
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

07/03/2021 16h00

Resumo da notícia

  • Suíços foram às urnas para votar sobre a ratificação de um acordo comercial com Indonésia
  • Ecologistas e agricultures forçaram consulta popular, diante do impacto que tratado poderia ter para floresta asiática
  • Acordo foi aprovado, mas com apenas 51,5% dos votos
  • Na imprensa suíça, resultado foi um recado claro para o Mercosul

O Mercosul terá sérias dificuldades para convencer o eleitorado suíço a aprovar o acordo comercial entre o bloco sul-americano e a Associação Europeia de Livre Comércio, formada por Suíça, Noruega, Liechtenstein e Islândia.

Neste fim de semana, um acordo similar entre a Suíça e a Indonésia foi submetido ao referendo popular no país europeu. O resultado foi apertado e apenas 51,6% dos eleitores optaram por apoiar o acordo, mandando um claro recado de que a população está disposta a considerar questões ambientais antes de fechar acordos comerciais.

"Os defensores de um acordo com o Mercosul tremem", afirma uma coluna publicada neste domingo pelo jornal Tribune de Genève.

Nas urnas neste fim de semana, o centro do debate era o impacto que o acordo comercial poderia causar nas florestas do país asiático. A Indonésia é o maior exportador de óleo de palma e, pelo tratado, fica estabelecido que as taxas aduaneiras apenas poderão ser reduzidas se o produto exportado do país asiático provar que não é resultado de desmatamento.

O governo suíço apoiava o acordo, assim como os partidos de direita e de centro. Para esses grupos, a abertura do mercado da Indonésia significará um aumento de exportações para os suíços.

Para a presidente da entidade EconomieSuisse, que representa o setor empresarial do país, o voto não era apenas sobre a Indonésia. Mas sobre os acordos de livre comércio como parte dos instrumentos de política econômica do país.

A tentativa de frear o acordo partiu de um produtor de vinho de Genebra, Willy Cretegny, que conseguiu o apoio dos partidos de esquerda, de ecologistas e partidos verdes, além de agricultores e sindicatos.

Para ele, mesmo com a derrota apertada nas urnas, o sentimento era de vitória. "Abrimos o debate sobre o princípio do livre comércio", disse. Em alguns dos cantões, o "não" ao acordo superou a marca de 65%.

Mercosul: apoiadores "tremem"

Se o acordo com a Indonésia por pouco não é aprovado, o resultado mandou sinais claros para diplomatas de que o acordo entre o Mercosul e os suíços poderá sofrer para ser ratificado.

O tratado foi fechado em 2019. Mas agora aguarda uma ratificação. Em diversos parlamentos regionais da Suíça, o acordo com o Mercosul já foi colocado em questão, pelo impacto que poderia ter para o meio ambiente e principalmente por conta da Amazônia.

A presidência da Suíça confirmou à coluna que o tratado, possivelmente, será submetido à votação popular.

Entre os negociadores brasileiros, o argumento ambiental é usado como "escudo" para camuflar interesses protecionistas por parte dos europeus, que se recusam a abrir o mercado às exportações sul-americanas.