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Jamil Chade

Governo faz campanha no exterior para vender êxitos no combate ao vírus

19.fev.2021 - Sem máscara, presidente Jair Bolsonaro causa aglomeração em Campina Grande (PB) - Alan Santos/PR
19.fev.2021 - Sem máscara, presidente Jair Bolsonaro causa aglomeração em Campina Grande (PB) Imagem: Alan Santos/PR
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

19/03/2021 04h00

Enquanto o Brasil se transforma em uma ameaça sanitária global, assume a liderança em número de novos casos e óbitos pela covid-19 e o sistema de saúde entra em colapso, o governo brasileiro intensifica uma ofensiva no exterior para tentar desfazer a imagem de que a pandemia está fora de controle.

Durante a semana, em diferentes fóruns internacionais, a opção dos representantes do governo de Jair Bolsonaro foi a de não fazer qualquer tipo de referência aos mortos ou lamentar pelas perdas. A ordem era destacar as ações das autoridades, criando uma percepção de que a crise estava sendo controlada e a população atendida. Internamente, o governo teme que a explosão no número de mortes mergulhe a credibilidade do país a patamares poucas vezes visto na história recente do país.

Atual "cemitério do mundo" e com mais de 20% das mortes no planeta pela covid-19 na última semana, o Brasil passou a ser alvo de críticas por parte de indígenas, da OMS, ativistas de direitos humanos e ambientalistas, além de governos estrangeiros. A ordem do governo é a de rebater e tomar a palavra para apresentar a sua própria narrativa sobre a situação no país.

Na quinta-feira, durante uma reunião fechada do Conselho de Administração da Organização Internacional do Trabalho, o tom adotado pelo Itamaraty foi um exemplo desse movimento de contra-ataque. Ao tomar a palavra, a delegação reiterou o "compromisso do governo com os direitos de indígenas" e indicou que iria apresentar "fatos" sobre a ação do Executivo durante a pandemia.

"Desde o começo, o governo tem tomado ações robustas para impedir a disseminação do vírus e reduzir impacto entre povos indígenas", afirmou o diplomata. Segundo ele, 3 milhões de itens foram enviados aos povos tradicionais, além de alimentos e o fortalecimento da proteção territorial.

"20 mil profissionais de saúde estão realizando campanhas de vacinação em 6 mil aldeias, das costas do Atlântico a locais remotos da Amazônia, com a meta de imunizar 400 mil indígenas. 70% deles já foram vacinados", garantiu o governo.

Já na semana passada, no Conselho de Direitos Humanos da ONU, o Brasil também insistiu que agia de maneira "consistente" para lutar contra o vírus. A afirmação gerou comentários irônicos por parte das demais delegações.

Antes, também no mesmo Conselho, a ministra dos Direitos Humanos, Damares Alves, declarou que o Brasil estava "garantindo" a vacina para todos idosos, profissionais de saúde e indígenas. Até agora, apenas 2,5% da população brasileira havia recebido as duas doses da vacina.

"Fazendo todo o possível"

A campanha para desfazer uma imagem negativa no exterior também incluiu um discurso nesta semana no Fórum dos Países da América Latina e Caribe sobre Desenvolvimento Sustentável da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal/ONU).

Uma representante do Executivo tomou a palavra na terça-feira para anunciar aos demais participantes que o governo estava ajudando a 126 milhões de pessoas no país diante da pandemia. "Ficamos tranquilos como governo saber que, nesse momento difícil, estamos fazendo todo o possível para não deixar ninguém para trás", destacou.

O Grupo de Trabalho da Sociedade Civil para a Agenda 2030, entidade formada por cerca de 50 ongs e ativistas, atacou a participação do Brasil.

"No dia em que o país registrou a morte de quase 3.000 pessoas em decorrência da Covid-19 e Jair Bolsonaro anunciava o seu quarto ministro da Saúde, o Brasil se vangloriava no Fórum da Cepal de estar no rumo certo para não deixar ninguém para trás, quando, na verdade, o governo tem contribuído para a piora da situação dos mais vulneráveis, para o colapso do Sistema Único de Saúde (SUS) e para o acirramento dos discursos sexistas, racistas e de ódio contra as populações LGBTI", disse.

"Essa atitude do governo brasileiro merece repulsa e é um fato grave. Como mostram as evidências, o crescimento das desigualdades no Brasil já não pode ser atribuído somente à crise sanitária e econômica e o Brasil, que tem a pior resposta à Covid-19, já é considerado uma ameaça global", afirmam as entidades.

"Nesse contexto, as medidas econômicas, sociais e ambientais, inclusive o atual desmonte de programas de assistência social, apenas intensificaram a pobreza estrutural e a miséria", disseram.

Para o grupo, "o governo brasileiro mentiu mais uma vez ao declarar que "a sustentabilidade está se tornando cada vez mais o ponto chave em nossos esforços de desenvolvimento".