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Jamil Chade

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Com atraso de um ano, Brasil recorre à OMS; mas não garante vacinas

Bolsonaro cobre os olhos com máscara  - Adriano Machado/Reuters
Bolsonaro cobre os olhos com máscara Imagem: Adriano Machado/Reuters
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

04/04/2021 04h00

Mais de um ano depois da eclosão da pandemia e vivendo o pior momento da crise sanitária, o governo de Jair Bolsonaro finalmente se aproxima da OMS, a Organização Mundial da Saúde (OMS). Mas traz uma lista de pedidos que, por chegar de forma tardia, dificilmente conseguirão ser atendidos pela agência de Saúde, principalmente no que se refere a uma antecipação de vacinas.

Neste sábado, o novo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, manteve uma das primeiras reuniões entre a cúpula do governo Bolsonaro e a direção da OMS. O encontro marca uma nova postura do governo que, por meses, fez questão de lutar contra qualquer ação internacional que pudesse significar um fortalecimento da posição internacional dos organismos multilaterais.

Sob o comando de Ernesto Araújo, a ordem no Itamaraty era a de evitar qualquer iniciativa global, dentro do contexto da luta do Itamaraty contra o que a ala mais radical do bolsonarismo chamava de "globalismo".

Durante os meses da gestão de Eduardo Pazuello, no ministério da Saúde, o princípio defendido pelo Itamaraty foi seguido e o governo brasileiro se ausentou dos principais debates na OMS.

Ainda no ano passado, o governo brasileiro hesitou em fazer parte da Covax, a aliança mundial das vacinas. Depois de forte pressão, o Palácio do Planalto acabou aderindo ao projeto. Mas optou por comprar o menor número de doses possível, atendendo a apenas 10% da população brasileira.

Queiroga, agora, quer convencer a OMS a ampliar o envio de vacinas ao Brasil. Aos interlocutores na Organização Panamericana de Saúde, braço regional da OMS, o ministro indicou que poderia ampliar as compras na Covax, saltando de 10% para 20%, o que significaria um acesso a mais de 80 milhões de doses.

Neste fim de semana, o novo chefe da pasta da Saúde voltou a tratar do tema com a direção da OMS. Tedros Ghebreyesus, diretor-geral da agência, já havia avisado a outros interlocutores brasileiros que não havia disponibilidade no momento e que o mecanismo criado pela entidade sofria com a falta de abastecimento.

Até maio, o Brasil deve receber 9 milhões de doses das 42 milhões que comprou do mecanismo criado pela Covax. Mas apenas recebeu por enquanto 1 milhão.

Fontes dentro da entidade apontam que se o Brasil tivesse feito um pedido maior antes, poderia estar contemplado por um volume maior de vacinas no primeiro semestre. Mas tendo feito o pedido apenas agora, elevar as doses ao Brasil e deixar outros países pobres com dificuldade de abastecimento abriria uma crise política importante na agência.

Ainda assim, dentro da OMS, a aproximação com o Brasil foi comemorada. A entidade considera que uma eventual vitória do país contra a covid-19 pode ser decisiva hoje para reduzir os números no mundo. Nos últimos dias, o Brasil representou um terço das mortes pelo vírus e passo a ser uma ameaça sanitária internacional.

Na OMS, esperança é de que haja mudança por parte do governo

Na cúpula da OMS, Jair Bolsonaro já foi chamado de "louco" por sua atitude diante da doença. Agora, a entidade tvê com certa esperança as mensagens de Queiroga, como indicações de que ele seguiria recomendações científicas e esforços para se evitar aglomerações. A ordem interna na agência é a de usar a brecha aberta por Queiroga para permitir uma aproximação maior e convencer o governo a aderir às principais recomendações dos cientistas da entidade.

Do lado da OMS, o diretor-geral da entidade, Tedros Ghebreyesus, deixou claro ontem ainda que qualquer ação precisa ser baseada na ciência. Por meses, a insistência do Brasil em não seguir recomendações de cientistas e mesmo da OMS causaram profunda frustração na entidade.

Nas redes sociais, Tedros chamou o contato com Queiroga de "uma boa ligação". "Concordamos que fortalecer medidas de saúde pública e aumentar a produção local de vacinas é chave para parar a COVID-19", escreveu. Mas não prometeu mais vacinas.

"A OMS continua a ajudar a resposta do Brasil, baseada em ciências e num sistema nacional de saúde forte", completou.