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Jamil Chade

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Grupo na ONU denuncia negacionismo de Bolsonaro diante da pandemia

Bolsonaro enfrenta uma crise militar e política em seu governo - REUTERS
Bolsonaro enfrenta uma crise militar e política em seu governo Imagem: REUTERS
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

07/04/2021 16h04

Resumo da notícia

  • Em capítulo de documento que fala sobre "genocídio", peritos citam presidente brasileiro e suas ações com povos indígenas
  • Texto servirá de base para debate sobre o impacto da pandemia entre povos indígenas, a partir do dia 19 de abril em Nova Iorque

Um documento preparado na ONU e que servirá de base para um debate em Nova Iorque sobre a situação dos povos indígenas no mundo denuncia o presidente Jair Bolsonaro por uma atitude negacionista diante da covid-19 e aponta seus atos como responsáveis por aumentar a pressão sobre a floresta.

"No Brasil, um dos epicentros mundiais da pandemia, o presidente Jair Bolsonaro negou a existência do vírus e seus efeitos", acusou o documento preparado à pedido da secretaria do Conselho Econômico e Social da ONU e como parte do Fórum Permanente para Questões Indígenas. O grupo é composto por 18 peritos, dos quais metade é escolhida pelos governos nacionais.

O levantamento sobre os direitos dos povos indígenas durante a pandemia foi coordenado por Dario José Mejia Montalvo, com a contribuição de especialistas e organizações indígenas.

A referência ao presidente brasileiro ocorre em um capítulo intitulado "Aceleração do Extermínio como Forma de Genocídio".

O documento amplia a pressão sobre o governo brasileiro e exigirá que, durante o Foro Permanente para Questões Indígenas na ONU, o Itamaraty tenha de dar respostas.

O texto deixa claro como a política do governo Bolsonaro teve um impacto direto na situação dos povos indígenas. De acordo com o documento, "(Bolsonaro) designou ao seu gabinete uma maioria de militares e enviou as forças armadas sobre os territórios indígenas, ignorando as ordens do Supremo Tribunal Federal sobre a proteção devida", disse. "Essas forças armadas resultaram ser, nos territórios, os principais transmissores do vírus", ataca.

Em outro trecho do documento, os autores do estudo apontam como, em março de 2020, foi registrado um aumento de 3% no desmatamento do território Yanomani, no estado de Roraima. "Esse povo tem sido um dos mais afetados, registrando, em 4 de novembro de 2020, o falecimento de nove pessoas pelo vírus e o óbito de outras 14 pessoas, ainda que a causa da morte ainda siga sem ser esclarecida", disse.

Apesar de o debate na ONU ocorrer a partir da semana que vem, o documento que serve de base foi concluído em janeiro de 2021.

O Foro Permanente para Questões Indígenas, que começa no dia 19, irá se transformar no novo foco de ação de povos tradicionais contra as políticas do governo. O Conselho Indigenista Missionário (CIMI), ligado à CNBB, espera que recomendações específicas em relação ao Brasil sejam feitas sobre a gravidade da situação da pandemia nos povos indígenas.

A delegação de indígenas e especialistas contará com 30 pessoas e pressionará por uma ação dura por parte da ONU contra o Brasil.