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Jamil Chade

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Hospital lotado é culpa de "24 anos de esquerda", diz embaixador do Brasil

Protesto em frente à embaixada do Brasil em Paris - Rosemay Jobrel/AutresBrésils
Protesto em frente à embaixada do Brasil em Paris Imagem: Rosemay Jobrel/AutresBrésils
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

14/04/2021 06h15

Resumo da notícia

  • Luis Fernando Serra chegou a ser cogitado para assumir o Itamaraty, no lugar de Ernesto Araújo
  • Diplomata ainda disse que Bolsonaro vacinou 30 milhões de pessoas e que presidente não tem poder de confinar população

Numa entrevista que foi ao ar na noite de terça-feira, o embaixador do Brasil na França, Luis Fernando Serra, afirmou à imprensa em Paris que a culpa por hospitais desbordados hoje no país é da falta de investimentos da esquerda em saúde.

O diplomata foi convidado a participar da emissão da BMFTV depois de a França anunciar a suspensão de voos ao Brasil até o dia 19 de abril. Ele chegou a ser cotado para substituir Ernesto Araújo como chanceler e tem sido alvo de repetidos protestos por parte da sociedade civil, diante de sua embaixada.

O embaixador disse que não comentaria a decisão soberana da França de suspender a ligação aérea e que não considerava a ação como uma sanção. Mas foi incisivo em alertar ao apresentador que, se ele tinha essa ideia pessoalmente de que se tratava de uma sanção, ele deveria entender que o turismo não representa uma parte significativa da economia nacional.

"Não dependemos do turismo. Recebemos apenas 6,5 milhões estrangeiros que visitam o Brasil, um país de beleza extraordinária, enquanto na França recebe 95 milhões de estrangeiros. O peso do turismo não é enorme", alegou.

Mas ao ser confrontado com os dados de mortes e diante do comentário do jornalista francês de que existe uma percepção de que o presidente Jair Bolsonaro "não faz muita coisa" para lidar com a pandemia, o embaixador subiu o tom:

"Ah, você acha que ele faz pouca coisa? Então vou te dizer uma coisa: o Brasil é o quarto, quinto país do mundo que mais vacinou. Você sabia disso? Fale isso, fale isso!", insistiu o diplomata, arregalando os olhos.

"O presidente vacinou 30 milhões de brasileiros. E, por conta desse dado, nós somos o quinto país que mais vacinou, depois dos EUA, China, Índia e Reino Unido. Você não acha que esse é um bom resultado?", retrucou.

Em nenhum momento o diplomata explicou que mais de 80% das vacinas hoje no país fazem parte do acordo entre o Butantan e a Sinovac e sua resposta passava a impressão de que a campanha de vacinação era obra de Bolsonaro.

O diplomata tampouco explicou que, em proporção ao tamanho da população, o Brasil não aparece nem entre os 50 países que mais vacinaram.

Nesse momento, o apresentador tentou interromper, mas foi cortado pelo embaixador.

"Deixe eu terminar", insistiu o brasileiro. "Se os hospitais estão lotados é por causa dos 24 anos da esquerda no Brasil, que não construiu hospitais suficientes", afirmou.

"Não é por conta de o presidente se recusar a confinar o país?", questionou o repórter.

Para o embaixador, Bolsonaro não pode ser responsabilizado. "O STF decidiu que o presidente não tem o poder de confinar", afirmou. Segundo ele, esse poder é dos governadores. "Isso precisamos dizer. Ele não teve o poder de confinar", afirmou.

A rede de TV francesa ainda mostrou um trecho de um discurso de Bolsonaro no qual o presidente, em março, diz que o país precisa parar de chorar. "Você entende isso?", perguntou o repórter ao diplomata.

"Claro que entendo. Ele é solidário e quer que as pessoas trabalhem", respondeu o embaixador. Segundo ele, o confinamento impede os brasileiros de trabalhar e que 35 milhões de pessoas precisam de sua renda diária para sobreviver, "Não há a cobertura social que existe na Europa", justificou.

Segundo ele, se não forem autorizados a sair, essas pessoas "morrem de depressão ou de fome".


"A direita no mundo adora Bolsonaro"


Já nesta manhã de quarta-feira, Serra voltou a ser entrevistado na mesma rede de TV, apenas para repetir a mesma posição e insistir que "não é verdade" que o Brasil seja o primeiro em número de mortes. Segundo ele, em proporção à população, o Brasil é o 19º colocado no mundo em óbitos. Ele, porém, não usou esse cálculo proporcional para tratar da vacinação.

"Não sei o motivo, mas quando Donald Trump era presidente, falávamos dos dados dos EUA, que era o primeiro em número de mortos. Hoje não falamos mais. Agora falamos do Brasil que seria o primeiro. Não somos", disse, apontando que os americanos continuam na liderança. "Continuamos a ser o segundo", justificou.

Ao ser questionado sobre as imagens de enterros e hospitais lotados, o diplomata voltou a se irritar. "E isso é culpa de Bolsonaro?", questionou.

"As cenas são as mesmas que vemos há 30 anos. 24 anos da esquerda fabricaram essas imagens", acusou. "As imagens não eram diferentes quando a esquerda estava no poder. As pessoas pensam que é obra de Bolsonaro", criticou.

Mas ao ser questionado sobre quais medidas o governo estaria adotando, ele voltou a falar na vacinação. "Essa é obra do governo Bolsonaro", garantiu, sem qualquer referência uma vez mais ao governo do estado de São Paulo.

Serra ainda foi questionado sobre pessoas nos bares. "É o que as pessoas querem. Viver e trabalhar. Há um preço a pagar. Mas pergunte se as pessoas querem ficar em casa", disse.

Ao concluir, ele ironizou o repórter. "Parece que você não está feliz com minhas respostas", lançou.

O jornalista, porém, alertou que Bolsonaro estava sendo criticado em todo o mundo. "Criticado pela esquerda pelo mundo inteiro", retrucou o diplomata. "A direita adora ele".

O apresentador apontou que as críticas iam "um pouco além da esquerda" e que "nem toda a direita" adorava o presidente brasileiro.

Mas o embaixador insistiu. "Adora no Brasil, na França, nos EUA". Serra ainda garantiu que a pandemia foi "politizada" no Brasil.