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Jamil Chade

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Entidades costuram base de futura "Comissão da Verdade" sobre pandemia

Cruzes no cemitério Parque Taruma em Manaus durante a pandemia da covid-19 - Bruno Kelly/Reuters
Cruzes no cemitério Parque Taruma em Manaus durante a pandemia da covid-19 Imagem: Bruno Kelly/Reuters
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

27/04/2021 04h00


A pandemia leva entidades a criar uma comissão especial sobre pandemia e direitos humanos, cujo objetivo é estabelecer parâmetros para que o estado brasileiro institua políticas efetivas de responsabilização, memória e reparação às vítimas da pandemia de covid-19.

Alcançada essa meta, os grupos implicados na iniciativa acreditam que estaria criada a base para uma espécie de Comissão da Verdade, com a função de garantir que um dos períodos mais trágicos da história recente do país seja alvo de um processo de reparação e para que a memória do que está ocorrendo não seja distorcida ou manipulada.

A iniciativa é do Conselho Nacional dos Direitos Humanos (CNDH), um órgão colegiado que tem por finalidade a promoção e a defesa dos direitos humanos no Brasil. A entidade é formada por 11 representantes da sociedade civil e 11 do poder público, incluindo a Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Conselho Nacional dos Procuradores-Gerais do Ministério Público dos estados e da União (CNPG) e o Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

Com quase 400 mil mortes, o Brasil é um dos países mais atingidos do mundo, com repercussões que poderão levar anos para serem superadas. Para lidar com o impacto social, o Conselho criou a comissão especial sobre pandemia.

Agora, o grupo vai além e mergulha em um trabalho para garantir que a memória e reparação nesse período sejam avaliadas.

A comissão irá organizar oitivas, fará missões a locais e planeja seminários com especialistas para lidar com o tema. As populações mais vulneráveis também serão ouvidas para que possam relatar como viveram a crise. Informes do Tribunal de Contas da União e documentos objetivos por meio da Lei de Acesso à Informação também formarão parte do levantamento.

O que o grupo quer saber é o que foi feito e onde houve omissão, traçando paralelos com outras violações de direitos humanos e a responsabilidade do estado.

A previsão é de que os trabalhos sejam realizados até o final de 2022, com a meta de avaliar a crise do ponto de vista dos direitos humanos, examinar violações sistemáticas do estado e pensar em parâmetros para responsabilidades e política de restauração, reparação e memória.

Um dos objetivos é o de criar condições para que sejam estruturadas políticas públicas capazes de restituir às pessoas afetadas o patamar anterior à agressão. Isso inclui tanto a questão de saúde, como cuidados médicos prolongados e assistência social, como oportunidades no campo do trabalho.

Preservar a Memória

Um segundo eixo do trabalho será o de garantir a preservação da memória deste momento. Para Rogério Giannini, um dos conselheiros do órgão, não pode haver no futuro a manutenção de narrativas minimizadoras ou francamente negacionistas, ameaçando reduzir o impacto que a pandemia teve ou relativizar os mortos.

"Não ter memória é um mecanismo muito eficiente para que repetições ocorram", argumenta o representante do Conselho. "Quando se tenta colocar uma pedra sobre um assunto, ele acaba voltando não apenas como memória, mas como sintoma", alerta Giannini, que representa no organismo o Conselho Federal de Psicologia.

"A pandemia precisa ser entendida como uma grande tragédia", diz. Para ele, há um esforço por parte de autoridades responsáveis em tratar a questão como "farsa" e criar "distrações".

O trabalho poderá envolver até mesmo o questionamento sobre subnotificações de casos e de mortes pela pandemia. "A sociedade e cada família ou pessoa tem o direito de saber, para que tenhamos a real dimensão da pandemia e para que se possa inclusive acessar políticas de cuidado e reparação", afirmou Giannini, psicólogo e que atua em saúde e educação em Direitos Humanos.

Em sua avaliação, uma das respostas é a de construir redes na sociedade para possibilitar que cada pessoa possa expôr sua experiência de perda e desamparo e ao mesmo tempo possa ser acolhida, criando a percepção de que há uma dimensão coletiva e social. "Para além da simples fatalidade", explicou.

O conselheiro ainda defende que se estabeleça uma espécie de memorial da pandemia, como outro gesto para impedir que se naturalize a crise e que permita à sociedade gerar mecanismos de prevenção, impedindo que calamidades correlatas ocorram no futuro.

Por fim, há uma crescente preocupação com a questão dos efeitos da pandemia a longo prazo, os de ordem mais geral e os diretamente vinculados às pessoas que tiveram a doença e desenvolveram sequelas. Para o grupo, políticas assistenciais e de cuidado à saúde pelo SUS precisam ser estruturadas. "Infelizmente essa crise vai muita além das mortes", completa Giannini.