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Jamil Chade

OMS aprova vacina da Sinopharm, a 1ª chinesa; CoronaVac requer mais dados

Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

07/05/2021 12h33Atualizada em 07/05/2021 14h43

Resumo da notícia

  • OMS faz questão de alertar, porém, que vacina "não é a solução" para frear a pandemia neste momento e apela para distanciamento e medidas de controle
  • Sinovac terá ainda de responder a dúvidas apresentadas pela agência ainda de ter sua vacina chancelada
  • Para a OMS, mundo continua "apertando o acelerador" da contaminação

Tedros Ghebreyesus, diretor-geral da OMS (Organização Mundial da Saúde), anunciou hoje que a entidade deu a chancela para o uso global da vacina chinesa da Sinopharm. Trata-se da sexta vacina que ganha a aprovação da entidade e a esperança é de que isso amplie o abastecimento de doses, principalmente nos países em desenvolvimento.

Mas a entidade pediu mais dados para que possa aprovar também as doses da Sinovac, a parceira do Instituto Butantan na produção da CoronaVac. A esperança era de que as duas vacinas fossem aprovadas ao mesmo tempo. Segundo a OMS, porém, perguntas surgiram sobre a Sinovac e, portanto, uma nova carta foi direcionada para a empresa na China. Uma vez esclarecidas, as questões então serão reavaliadas e a agência espera uma decisão "logo".

A OMS não esclareceu quais foram as dívidas que surgiram e quais foram as perguntas apresentadas para a empresa.

O abastecimento chinês é considerado como fundamental para garantir uma maior distribuição. Hoje, 80% das mais de 1,2 bilhão de vacinas produzidas foram direcionadas para países ricos e importantes economias emergentes, como Índia e Brasil. Já os 40 países mais pobres do mundo receberam apenas 0,3% das doses produzidas. "Isso é moralmente inaceitável", disse Tedros. Hoje, esses países mais pobres foram beneficiados com apenas 5 milhões de doses.

Segundo a OMS, a vacina da Sinopharm poderá ser usada para pessoas acima de 18 anos. Com a chancela, as doses chinesas poderão abastecer ações internacionais, como a aliança da Covax e que vive uma penúria de doses. A aprovação também facilita a importação de vacinas por parte de países mais pobres que sequer têm recursos para manter agências reguladoras.

A conclusão da OMS é de que existem evidências suficientes de que o produto é seguro e tem eficácia de 79%. Para as pessoas acima de 60 anos, os especialistas da agência indicam que não contam com dados suficientes. Mas optaram por não colocar um limite de idade no uso do imunizante e pedem que governos que já usaram a vacina acompanhem seu impacto nessa população.

A recomendação da OMS é de que duas doses sejam administradas, com um espaço de duas ou três semanas. O produto foi desenvolvido pelo Bio-Institute of Biological Products, de Pequim, uma subsidiária da China National Biotec Group (CNBG), e hoje é distribuído em cerca de 40 países, entre eles Peru e Argentina.

De acordo com a agência, as fábricas na China foram avaliadas em inspeções no local e a constatação dos técnicos é de que os benefícios eram claros e superiores a qualquer risco. Além das vacinas chinesas, a OMS já aprovou os produtos da Pfizer, AstraZeneca e da Janssen.

Tedros, porém, insiste que o mundo vive "uma crise crônica de vacinas" e a distribuição ainda é insuficiente. Para a OMS, a decisão do governo americano de apoiar a ideia de suspender patentes de vacinas é um "sinal de solidariedade". "Não é uma uma decisão política fácil e pedimos que outros países sigam o exemplo", afirmou.

Na avaliação do chefe da OMS, a atual crise é "sem precedentes" e, portanto, as "ações sem precedentes também precisam ser adotadas". "Estamos batendo recorde em números de novos casos. Temos quase 100 mil mortes por semana. Se as flexibilidades na questão de patentes nos acordos da OMC não forem usadas agora, quando então?", questionou.

Tedros, porém, insiste que uma suspensão de patentes terá de ser acompanhada por transferência de tecnologia, já que a fabricação de vacinas não é simples. Ele também pediu que o G7 aceite entregar doses que acumulou nos últimos meses.

"Vacina não é a solução neste momento"

Apesar de colocar suas esperanças em uma maior distribuição de doses, a OMS fez um alerta de que a pandemia apenas irá ser freada quando governos entenderem que terão de ampliar medidas de controle social e distanciamento.

"Estamos muito preocupados com a possibilidade que outros países sigam o que ocorre na Índia, Brasil e Nepal", disse Tedros.

"A vacina não é a solução neste momento. O que estamos vendo é que estamos pisando no acelerador das contaminações", alertou Mike Ryan, diretor de operações da OMS. "Precisamos mais vacinas. Mas ainda não estamos la e governos precisam promover medidas para evitar aglomerações, uso de máscaras", disse.

"Essa é a realidade bruta. Alguns países estão indo numa direção perigosa", alertou. "Vamos ter de fazer o que sabemos que funciona e governos precisam olhar no espelho", disse.

Mara van Kerkhove, diretora técnica na OMS, adotou o mesmo tom. "Apenas vacinar não é suficiente", disse. Para ela, o mundo está indo na "direção errada" se não adotar medidas de controle social. "Os números que estamos registrando são muito chocantes", completou.