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China é 1ª a sinalizar reconhecimento e quer "relação amistosa" com Taleban

Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

16/08/2021 06h34

A China é a primeira potência a sinalizar um reconhecimento da tomada de poder pelo Taleban e anuncia, nesta segunda-feira, que está disposta a manter "relações amistosas" com o grupo que tomou neste domingo a capital Cabul. Isso, porém, em troca de um compromisso do grupo radical de que não irá apoiar minorias muçulmanas em território chinês.

Num pronunciamento, Pequim deixou claro que não pretende questionar a formação de uma nova administração. O governo russo, que assim como os chineses, não fechou sua embaixada em Cabul. Mas indicou que iria tomar uma decisão sobre um eventual reconhecimento com base na "conduta" do Taleban.

No caso chinês, o envolvimento na região é considerado como estratégico como forma de ampliar sua influência na Ásia. Entre diplomatas estrangeiros, a queda de Cabul, portanto, não é apenas um fracasso das ambições americanas no Afeganistão, mas um golpe contra a presença ocidental na Ásia.

Em julho, uma delegação do Taleban visitou a China e se reuniu com o chefe da diplomacia do país, Wang Yi. Já naquele momento, o grupo extremista declarou que considerava as autoridades chinesas como "amigas" e que o foco era o de começar um diálogo sobre investimentos de Pequim no Afeganistão.

Assim que a crise eclodiu, neste fim de semana, o foco da imprensa chinesa foi dado no fracasso da estratégia de 20 anos dos EUA no Afeganistão. O jornal China Daily, uma espécie de porta-voz do governo chinês, trouxe um editorial no qual chamou a situação de Cabul uma "humilhação" para os americanos.

Há ainda outro aspecto fundamental para a China: um suposto acordo com o Taleban para que o Afeganistão não seja uma base para militantes islâmicos que poderiam ajudar a minoria Uyghur, em território chinês. Os dois países contam com uma fronteira comum de cerca de 80 quilômetros.

Ironicamente, foi oficialmente com o objetivo de evitar que o Afeganistão se transformasse em base de operações para o terrorismo contra o Ocidente que os EUA invadiram o país, em 2001. Desta vez, a China busca o mesmo resultado, por meio de um acordo.

Agora, Pequim diz que está "pronta" para ampliar a cooperação com o novo governo de Cabul.

Saigon em 1975, Cabul em 2021

Não por acaso, o secretário de Estado norte-americano, Antony Blinken, se apressou em declarar que a situação não era uma repetição de Saigon, quando os americanos tiveram de resgatar em 1975 seus funcionários da embaixada no Vietnã diante da derrota numa das guerras que mais impactou a sociedade americana.

Nas últimas 24 horas, as cenas de Cabul, porém, reacendiam o debate sobre o envolvimento americano em territórios estrangeiros. No aeroporto da capital afegã, milhares de pessoas tentavam, de todas as formas, embarcar nos poucos aviões comerciais que ainda existiam, enquanto as fronteiras do país são tomadas por grupos tentando cruzar para o Paquistão e outros países.

Pelas cidades, longas filas foram formadas com famílias tentando resgatar todo seu dinheiro, em caixas de bancos.

Já ex-generais da OTAN, em diferentes meios de comunicação pela Europa, admitiam que as cenas deveriam levar o Ocidente a repensar suas estratégias de segurança e "aprender as lições".

Assim como também ocorreu no Vietnã, um dos debates é o destino de cerca de 18 mil afegãos que, nos últimos anos, trabalharam para os americanos. O temor é de que essas pessoas sejam torturadas ou executadas por terem "traído" a população local. Não há, pelo menos por enquanto, qualquer sinalização por parte da Casa Branca de que essas pessoas e suas famílias serão protegidas ou retiradas do país.