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Jamil Chade

Corrupção, deserção e traições: a história da vitória do Talibã

Membros das Forças Especiais Afegãs se reagrupam após fortes confrontos com o Talibã, na província de Kandahar - Danish Siddiqui/Reuters - 13.jul.2021
Membros das Forças Especiais Afegãs se reagrupam após fortes confrontos com o Talibã, na província de Kandahar Imagem: Danish Siddiqui/Reuters - 13.jul.2021
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

21/08/2021 04h00

Resumo da notícia

  • Avanço acelerado de grupo fundamentalista se aproveitou de um colapso do estado, corrupção e acordos
  • Processo iniciado por Trump e confirmado por Biden deu impulso para Talibã

O avanço do Talibã pelo Afeganistão foi marcado por torturas, execuções e crimes de guerra. Mas negociadores que estiveram envolvidos no processo político afegão alertam que a velocidade pela qual a queda do governo ocorreu só pode ser explicada pela corrupção, traições e a revelação do despreparo das forças oficiais.

A tomada de Cabul e de outras grandes cidades fica ainda mais enigmática diante da constatação de que, num dos países mais pobres do mundo, potências estrangeiras despejaram US$ 2,5 trilhões (R$ 13,5 trilhões na cotação de ontem) em 20 anos.

Os últimos meses foram marcados por intensos confrontos, uma explosão de deslocados internos e um aumento vertiginoso de feridos, cenário que se soma desde o início da guerra, em 2001, aos mais de 60 mil soldados das forças nacionais afegãs mortos em combate.

Mas, falando em condição de anonimato com a coluna por temer retaliações, diplomatas afegãos na Europa explicaram que o colapso do governo e a vitória do Talibã são resultados de um processo de desmonte do Estado e que se acelerou desde abril deste ano, quando a Casa Branca confirmou que estava deixando o país.

Parte da explicação está na própria formação repleta de contradições do Exército Nacional do Afeganistão. Logo que o grupo fundamentalista foi derrotado, em 2001, o Ocidente estimou que as forças locais deveriam ter entre 50 mil e 75 mil homens, já que os radicais não passariam de 20 mil homens.

Mas, ao longo dos anos, ficou claro que uma expansão era necessária para frear o que parecia ser a desintegração do país. Ao final da primeira década, já eram quase 110 mil soldados e, poucos anos depois, o número foi incrementado para 180 mil e, mais recentemente, 300 mil.

Em troca da expansão, abriu-se mão da qualidade do treinamento. Até 2014, os novos soldados recebiam apenas dez semanas de treinamento. Ao expandir as forças, as autoridades logo descobriram que 80% dos recrutas eram analfabetos. Nem os US$ 88 bilhões (R$ 476 bilhões) colocados em treinamento de militares foram suficientes para superar esse obstáculo.

Soldado fantasma

Enquanto essa era a realidade militar do país, a corrupção endêmica chegava a todos os setores da sociedade, inclusive nas forças armadas. Quando a primeira década de ocupação terminou, um levantamento realizado pela ONU (Organização das Nações Unidas) concluiu que 59% da população vivia de forma diária "experiências de desonestidade" por parte das autoridades. "Os afegãos dizem que é impossível obter serviços públicos sem pagar propina", declarou na época o responsável do Escritório da ONU para Crime e Drogas, Antonio Maria Costa.

O estudo também revelou que o valor da propina consumia uma parte significativa da renda das famílias. Em média, o "baksheesh", como a propina é chamada, era de US$ 160 (R$ 865), num país onde a renda anual por pessoa é de cerca de US$ 424 (R$ 2.293).

Só naquele ano de 2010, a estimativa da ONU era de que os afegãos pagaram US$ 2,5 bilhões (R$ 13,5 bilhões) em propinas, 25% do PIB (Produto Interno Bruto) do país. Pelo levantamento, um quarto da população dizia ter pago propinas para a polícia.

Mesmo dentro da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), estima-se que um terço das armas entregues ao exército regular do Afeganistão terminou nas mãos do Talibã ao longo dos últimos anos.

Mais recentemente, em julho, um informe oficial apresentado ao Congresso americano sobre a reconstrução do Afeganistão constatou os "efeitos corrosivos da corrupção" dentro da caserna e colocou em questão "a força real da força". Pela primeira vez, de forma pública, questionava-se a "vontade de lutar" dos soldados.

O mesmo informe ainda indicou práticas cada vez mais comuns de registros falsos de militares, usados para embolsar salários. Isso criou a figura tanto de "soldados fantasmas" como de "policiais fantasmas".

Diante desse cenário, os dados constatam que o ritmo de deserção dos últimos meses deve ser considerado como um reflexo do caos. Por mês, o exército nacional perdeu cerca de 5.000 homens por deserção desde o começo do ano, conseguindo apenas recrutar entre 300 e 500.

Apenas no mês de julho, 1.600 soldados buscaram refúgio no vizinho Tajiquistão, ao se darem conta que iriam ser aniquilados pelo Talibã, em seu avanço pelo país.

Miséria

Enquanto a corrupção não conseguia ser lidada e as deserções passavam a ser uma história do cotidiano das forças oficiais, a realidade humanitária no país se degradava de forma profunda. Dados da ONU, publicados no início de 2021, revelaram que o número de pessoas que estavam em situação de desespero e crise alimentar havia quadruplicado.

Vinte anos depois da invasão, 18 milhões de afegãos estavam em crise humanitária e precisavam de ajuda, um número inédito. Parte do cenário era causado pela covid-19. Mas, segundo a própria entidade internacional, 40 anos de guerras e a instabilidade recente também contribuíam para o drama de quase metade da população do Afeganistão.

Trump e Biden aceleraram colapso, alegam mediadores

Num país fracassado e num governo inoperante, os fundamentalistas encontraram uma brecha quando ficou claro, ainda em 2020, que o Ocidente iria se retirar depois de um acordo diplomático fechado com o governo de Donald Trump.

Aldeia por aldeia, vale por vale, as milícias desembarcaram com sacos de dinheiro, dispostas a comprar o apoio dos "senhores da guerra". Em troca, tais líderes locais entregariam suas armas e não resistiriam ao avanço Talibã.

A falta de resistência não era apenas uma decisão política de províncias. Mas o resultado de acordos, traições e deserções em massa. Alguns optaram por aceitar a propina. Outros admitiram que, sem o Ocidente, temiam que o governo não resistisse e que acabassem sendo considerados como inimigos. A opção por mudar de lado, segundo negociadores, foi "sentido de sobrevivência política e física".

O ritmo de acordos se acelerou desde abril, o que coincide com ao núncio do presidente Joe Biden de encerrar a participação americana no Afeganistão. Em alguns locais do país, os confrontos se intensificaram. A OMS (Organização Mundial da Saúde) deixou claro que o número de atendimentos se multiplicou em seus centros, enquanto relatores da ONU falam em mais de mil mortos.

Mas quando ficou claro que o fim estava se aproximando, negociadores revelam que o trabalho do Talibã de conquistar novos aliados pelo país ficou ainda mais fácil. Alguns dos acordos com lideranças locais foram fechados em questão de poucas horas, entregando a população local a um regime que, no passado, mostrou estar disposto a estabelecer práticas medievais, crimes de guerra e crimes contra a humanidade.