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Jamil Chade

EUA consideram um boicote contra Olimpíada na China

15 nov. 2021 - Presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, em cúpula virtual com o presidente da China, Xi Jinping, na Casa Branca, em Washington, EUA - Mandel Ngan/AFP
15 nov. 2021 - Presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, em cúpula virtual com o presidente da China, Xi Jinping, na Casa Branca, em Washington, EUA Imagem: Mandel Ngan/AFP
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

19/11/2021 05h25


O governo de Joe Biden, nos EUA, está examinando estabelecer um boicote diplomático aos Jogos Olímpicos de Inverno de Pequim, que serão disputados em fevereiro de 2022. O gesto aprofundaria a tensão entre as duas superpotências e reabriria um clima apenas vivido durante a Guerra Fria.

A iniciativa da Casa Branca seria uma resposta aos ataques contra os direitos humanos por parte do governo chinês, em especial a acusação de genocídio contra muçulmanos minoritários. Pequim, nesta sexta-feira, respondeu de forma enérgica, alertando tal medida iria "ferir o espírito olímpico".

Em 2008, quando a China organizou a primeira Olimpíada, a viagem da tocha pelo mundo foi marcada por protestos contra a situação de direitos humanos no país. Naquele momento, o COI (Comitê Olímpico Internacional) foi surpreendido pela reação política e tentou acalmar a crise apontando que o evento ajudaria a garantir maior transparência por parte de Pequim. Ativistas de direitos humanos alertam que isso nunca ocorreu e que, de fato, a repressão é hoje maior.

O debate voltou a ganhar força depois que Biden confirmou que estava "considerando" um boicote diplomático, na noite de quinta-feira.

A Casa Branca esclareceu que não se trata de uma decisão de impedir que atletas americanos possam competir. Mas sim impedir que autoridades americanas compareçam ao evento, inclusive em sua festa de abertura.

Biden e o presidente chinês Xi Jinping mantiveram mais de três horas de conversas virtuais nesta semana, depois que, em Glasgow, os dois países surpreenderam o mundo ao anunciar um pacto conjunto pelo clima. Mas ficou claro que o tema de direitos humanos é um dos pilares da tensão entre os dois países.

Há poucas semanas, na ONU, a China havia dado uma resposta às críticas americanas e alertou que as instituições internacionais precisavam investigar temas como racismo e a morte de indígenas nos EUA, além da questão da imigração.

Mas a Olimpíada de Inverno pode se transformar num momento chave. Biden tem sido pressionado por membros do Congresso a ampliar as respostas contra a China, inclusive com medidas contra empresas americanas que patrocinem os Jogos de 2022. Já uma ala mais radical do Partido Republicano defende uma ação ainda mais dura, retirando até mesmo os atletas.

Não está definido de que maneira o boicote poderia ocorrer. Mas diplomatas admitiram à coluna que existe um esforço por parte do governo americano para avaliar uma resposta mais ampla da comunidade internacional. A ideia é de que, se parte importante do Ocidente evitar a abertura do evento, o governo americano sairia fortalecido.

Guerra Fria

Se a crise entre americanos e chineses reabre o debate entre política e esportes, os gestos considerados por Biden ainda estão distantes das medidas adotadas ainda nos anos 80. Em retaliação à invasão do Afeganistão por parte da URSS, o governo dos EUA liderou um boicote contra a Olimpíada de Moscou, de 1980. Como resposta, o bloco socialista não viajou até Los Angeles, em 1984.

Décadas antes, uma pressão também foi feita nos EUA para tentar impedir uma delegação americana de ser enviada aos Jogos de Berlim de 1936, uma vitrine de Adolf Hitler ao mundo. Mas não houve consenso e os atletas dos EUA estiveram no palco organizado pelo regime nazista.