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Jamil Chade

Na OMS, Queiroga omite mortes e diz que país reduziu em 90% casos da covid

O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, participa do programa Brasil em Pauta na TV Brasil - Marcello Casal jr/Agência Brasil
O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, participa do programa Brasil em Pauta na TV Brasil Imagem: Marcello Casal jr/Agência Brasil
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

29/11/2021 12h02Atualizada em 29/11/2021 13h10

Num discurso na OMS (Organização Mundial da Saúde) realizado nesta segunda-feira (29), por videoconferência, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, defendeu a estratégia do governo de Jair Bolsonaro (sem partido) contra a pandemia da covid-19. Mas omitiu a existência de mais de 600 mil mortes no país, um dos números mais elevados do mundo.

Depois de passar meses esnobando contratos com empresas farmacêuticas e criticando os acordos entre o Instituto Butantan e a China, o governo federal vendeu ao mundo, nesta semana, uma imagem de que os imunizantes foram centrais na redução de casos no país.

Queiroga não citou o pico de mortes, a recusa do governo em comprar vacinas e nem o fato de o presidente ainda não ter sido vacinado.

Falando aos ministros da Saúde de todo o mundo, Queiroga optou por comemorar alguns resultados.

"Graças à expansão de testes em massa e com mais de 75% da população vacinável completamente imunizada, foi possível reduzir em 90% a taxa de novos casos e mortes no intervalo de seis meses", disse.

Queiroga ainda destacou que o SUS foi central na resposta do governo à crise sanitária e afirmou que o Brasil é "protagonista" na saúde mundial. Ele, porém, não citou o desmonte de políticas sociais no país, sob o governo de Bolsonaro.

"A pandemia mostrou a necessidade de garantir acesso universal à saúde e de fortalecer sistemas nacionais de saúde", disse. "No Brasil, temos o SUS, que foi o pilar de nossa resposta", insistiu.

Mas ele alertou para nova onda de casos e como outros países vivem um aumento da doença.

Em seu discurso, ele voltou a pedir acesso à tecnologia para a produção de vacinas, insistindo que os países mais pobres ainda contam com apenas 5,6% de suas populações imunizadas.

Nesta semana, a OMS realiza uma reunião ministerial e aprovará o início de um processo negociador para criar um tratado que assegure regras para lidar com uma eventual próxima pandemia. No texto sob debate, países terão obrigações de reportar surtos, enquanto missões internacionais poderão ser criadas para investigar as origens de certas epidemias.

O processo deve durar até 2024, mas a OMS insiste que o tratado é fundamental para estabelecer medidas que possam evitar os mesmos erros que causaram uma crise política diante da covid-19.

Tedros Ghebreyesus, diretor-geral da agência, fez um apelo para que a negociação leve em consideração o fato de que a comunidade internacional fracassou em lidar de forma coerente com a atual crise. Para ele, o mundo precisa tirar as lições e evitar novas pandemias, no futuro.

O governo brasileiro, porém, vê com hesitação a possibilidade de dar a missões internacionais o mandato de investigar surtos, principalmente se isso poderia minar a soberania de um país. Um dos temores é de que, como surtos tendem a ocorrer em locais mais próximos aos trópicos, países em desenvolvimento seriam os principais afetados por uma pressão internacional.

O Brasil também já deixou claro que é contra a ideia de uma obrigação de governos de entregar amostras biológicas de eventuais vírus, sem uma contrapartida assegurada para garantir o acesso desses países a vacinas, tratamentos e diagnósticos que poderiam ser produzidos a partir dessas amostras.