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Jamil Chade

OMS rejeita deixar ômicron circular: "nenhum vírus que mata é bem-vindo"

Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

12/01/2022 13h29

Resumo da notícia

  • Entidade rebater ideias defendidas por Bolsonaro, de que variante poderia ser a última
  • OMS acredita que covid-19 está no caminho de ser endêmica. Mas alerta que mundo ainda não atingiu esse ponto

A OMS (Organização Mundial da Saúde) rebate as ideias contidas em declarações do presidente Jair Bolsonaro, minimizando a variante ômicron e insinuando que ela poderia ser o prelúdio do final da pandemia. Para a agência, a mutação continua sendo "perigosa", a ômicron não será a última variante e governos devem abandonar a ideia de permitir que a cepa circule entre as populações. Para a OMS, quem optar por esse caminho "errado" irá "pagar um preço" com a morte de idosos e de outros grupos vulneráveis.

Nesta quarta-feira, em entrevista ao site Gazeta Brasil, o presidente indicou que a ômicron "já espalhou pelo mundo todo, como as próprias pessoas que entendem de verdade dizem: que ela tem uma capacidade de difundir muito grande, mas de letalidade muito pequena".

"Dizem até que seria um vírus vacinal. Deveriam até... Segundo algumas pessoas estudiosas e sérias —e não vinculadas a farmacêuticas —dizem que a ômicron é bem-vinda e pode sim sinalizar o fim da pandemia", disse.

Bolsonaro ainda apontou que a variante "não tem matado ninguém" e que mesmo o óbito em Goiás pela ômicron seria de uma pessoa que já tinha "problemas seríssimos".

Na OMS, porém, a avaliação não coincide com a de Bolsonaro e técnicos apontam que é improvável que a ômicron seja a última variante.

"Se o vírus é menos severo, não quer dizer que a doença seja suave", disse Mike Ryan, diretor de operações da OMS, ao ser questionado pelo UOL sobre os comentários de Bolsonaro.

Ryan, em uma coletiva de imprensa nesta quarta-feira em Genebra, deixou claro que desconhecia as declarações do presidente brasileiro. Mas insistiu que "existem muitas pessoas que estão nas UTIs e em respiradores, buscando oxigênio, que seriam claros em dizer que essa não é uma doença suave", disse.

"A vacina pode evitar e é importante que lembremos que está em nossas mãos (acabar com a pandemia). Mas não é o tempo de desistir, de declarar que é um vírus bem-vindo", disse. "Nenhum vírus que mata é bem-vindo, principalmente se a morte e sofrimentos são evitáveis", declarou Ryan.

OMS é contra deixar o vírus circular: idosos irão morrer

Durante a coletiva de imprensa nesta quarta-feira, a OMS ainda fez questão de criticar narrativas que possam favorecer a circulação da ômicron, como forma de garantir uma imunidade coletiva.

"Essa variante não será a última", insistiu Bruce Aylward, responsável por vacinas na OMS. Segundo ele, quem deixar o vírus circular vai pagar um preço e governos precisam continuar a pedir que as populações usem máscara e mantenhas medidas de proteção. "Temos de fazer tudo o que for possível para desacelerar", afirmou.

"Há um gupo que diz: jogue a toalha e deixe que isso imunize o mundo", afirmou Aylward. "Mas temos outro grupo aqui dizendo use máscara, tome a vacina. Se fizermos a escolha errada, e a primeira opção é a escolha errada, as pessoas vão pagar um preço", alertou.

Quem pagará esse preço serão os trabalhadores do setor de saúde, pessoas sem acesso aos serviços e idosos, que irão morrer.

Para Tedros Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, há de fato uma estabilização desde outubro no número de mortes, em 48 mil casos por semana. Mas ele também rejeita a ideia de deixar a ômicron circular. Tedros também aponta para uma redução do impacto da cepa. "Mas vamos ser claros. Se seu impacto é menor, ele continua sendo um vírus perigoso, especialmente para quem não está vacinado", disse.

"Aprender a viver com ele não é que devemos aceitar mortes", alertou. "Não devemos deixar o vírus circular, com tanta gente sem vacina", disse. Segundo ele, na África, mais de 80% da população está desprotegida.

Covid-19 caminha para ser endêmica, mas ponto ainda não foi atingido

A OMS admite que todos os indicadores apontam que a covid-19 caminha para ser uma doença endêmica. Mas a entidade insiste que o mundo ainda não está neste ponto do desenvolvimento do vírus.

"Ele está no caminho de ser endêmico. Não há dúvidas sobre isso", declarou Maria van Kehkove, diretora técnica da OMS. "Mas estamos no meio da pandemia. Vemos menor taxa de hospitalização. Mas a pressão é ainda grande", alertou. "Não estamos ainda neste ponto (de uma doença endêmica)", completou.

Para a especialista, o vírus ainda está se desenvolvimento e existem incertezas sobre como será a próxima variante. "O que sim sabemos é que ainda teremos surtos entre pessoas não protegidas, que teremos outras doenças respiratórias", disse.

Ela, porém, acredita que o mundo pode começar a reduzir as mortes, tanto com vacinas como com tratamentos.

Morte estabilizada desde outubro, mas em taxas elevadas

Os últimos números da agência apontam para 15 milhões de novas infecções na semana que terminou no dia 9 de janeiro, com 43 mil mortes no mundo. Se a expansão de óbitos é de apenas 3%, contra um aumento de 55% no número de casos, a OMS alerta que ainda é cedo para comemorar.

Um dos impactos pode ser na saturação dos serviços de saúde, ampliando as dificuldades para o atendimento de pacientes de covid-19 e para outras doenças.

Outro ponto destacado pela OMS é que o caráter mais suave da ômicron ocorre em grande parte entre as pessoas vacinadas. O problema, porém, é que existem 3 bilhões de pessoas no mundo ainda sem nenhuma dose, enquanto os estudos apontam que a população idosa e doentes também continuam vulneráveis aos impactos mais severos da mutação.

A OMS também insiste que não se pode fazer política pública na base da esperança. Na agência, técnicos lembram como a delta chegou a ser considerada como a mutação última do vírus. O desenvolvimento da doença desmentiu os técnicos.

Vacinas

Na avaliação de Tedros, a fase aguda da crise apenas acabará quando houver maior distribuição de vacinas e destaca como, hoje, a grande maioria dos hospitalizados é composta por pessoas não imunizadas. Não existirá, segundo a OMS, um cenário no qual a covid-19 será endêmica em alguns locais e manterá seu caráter de pandemia em outros.

De acordo com Tedros, o mundo ainda está distante da meta de ter todos os países com 70% de suas populações vacinadas até final de junho. Hoje, 90 países não estão no rumo para atingir essa meta e 36 países sequer vacinaram 10% de suas populações.

Na avaliação do diretor da OMS, a política de certos países de dar doses de reforço não vai acabar com a pandemia e nem proteger suas populações. Segundo ele, o que precisa ser feito é garantir uma maior distribuição e, então, evitar o surguimento de variantes.