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Entre EUA e Putin, Brasil adota ginástica diplomática na ONU sobre Ucrânia

Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

31/01/2022 14h01

Resumo da notícia

  • Brasil atendeu a um pedido do governo dos EUA para que a crise na Ucrânia entrasse na agenda do Conselho de Segurança da ONU
  • Mas, diante de visita de Bolsonaro a Moscou, Itamaraty evitou pressionar Putin ou condenar qualquer tipo de ação
  • Isolado, brasileiro viaja ao Kremlin em momento de extrema tensão internacional

O governo brasileiro faz um apelo para que a diplomacia prevaleça para reduzir a crise entre russos e americanos e insiste que não existe solução militar para a instabilidade geopolítica na Ucrânia. Mas, diante de uma viagem do presidente Jair Bolsonaro a Moscou nas próximas semanas e da pressão do governo de Joe Biden, o Itamaraty adotou uma ginástica diplomática durante o debate desta segunda-feira, no Conselho de Segurança da ONU.

O gesto de equilíbrio diplomático por parte do Itamaraty foi interpretado por observadores internacionais como um esforço por parte do Brasil de evitar colocar pressão sobre o Kremlin.

Nesta segunda-feira, diante de um pedido dos EUA, o Conselho de Segurança da ONU realizou uma reunião de emergência em Nova York. O objetivo de americanos e europeus era colocar pressão sobre os russos. Mas Moscou contou com o apoio da China, que apelou para que a "diplomacia silenciosa" continuasse a trabalhar para desfazer a tensão na região.

A convocação da reunião foi criticada por Moscou que, assim que o encontro começou, pediu a palavra para solicitar um voto no Conselho sobre a realização ou não da sessão.

Dez dos 15 países votaram a favor da proposta dos EUA para a realização reunião e, portanto, o encontro foi mantido. O Brasil, que passou a fazer parte do Conselho neste ano, deu seu apoio ao debate, diferentemente da Índia que se absteve.

O voto favorável do Itamaraty e que apoia o pedido americano ocorreu horas depois de uma ligação telefônica entre Antony Blinken, o secretário de Estado norte-americano, e o chanceler Carlos França. Na conversa, a Ucrânia esteve entre os temas tratados.

Sem pressionar Putin

Apesar do voto que favoreceu o pedido americano de incluir a crise na agenda do Conselho, o discurso brasileiro na mesma reunião evitou entrar em choque com Putin. Jair Bolsonaro já afirmou que não planeja levantar o assunto da Ucrânia durante seu encontro com Putin. "Se esse assunto vier à pauta será por vontade do presidente Putin", disse o brasileiro, em entrevista a TV Record.

Já em Nova York, numa espécie de explicação aos russos de seu voto que chancelou o projeto dos EUA, o Itamaraty indicou que situações de "tensão e ameaças" exigem que o Conselho de Seguranças seja convocado. "Referências abertas a ações militares, sanções unilaterais e outras medidas são acontecimentos que precisam ser evitados pela Carta das Nações Unidas", disse o embaixador Ronaldo Costa Filho. "O Conselho de Segurança precisa cumprir seu mandato, que é evitar guerras", disse.

Apesar de atender ao pedido americano, o governo brasileiro não usou o encontro para pressionar a Rússia. "Há necessidade urgente de recorrer ao diálogo efetivo e entre as partes envolvidas", defendeu o diplomata brasileiro.

"Pedimos que as partes se engajem construtivamente para solucionar diferenças", disse. "Há espaço para restabelecer confiança e encontrar solução diplomática sustentável para essa crise", insistiu.

"Para isso, precisamos de vontade política e boa fé de ambos os lados. O Brasil incentiva todas as partes a observar o direito internacional. É imperativo que os princípios da Carta da ONU sejam aplicados, de forma não seletiva", disse.

Numa sinalização a ambos os lados, o Itamaraty apontou que o uso da força, a defesa da soberania, integridade territorial e proteção de direitos humanos são pilares do sistema de segurança coletiva.

Mas o Brasil também fez gestos a Putin. O Itamaraty usou o discurso para pedir "a boa fé de ambos os lados" para lidar com preocupação legítima de segurança de todos, incluindo da Rússia a e da Ucrânia", disse.

O voto e o discurso são os primeiros gestos públicos por parte do governo brasileiro diante da crise internacional.

A crise ganhou uma intensidade preocupante nas últimas semanas. Os governos dos EUA e da OTAN passaram a pressionar os russos a retirar mais de cem mil soldados colocados na fronteira com a Ucrânia, alegando que o posicionamento era uma indicação de uma invasão iminente.

Os russos negam, mas insistem que a OTAN precisa atender às preocupações de segurança de Moscou, inclusive criando regres específicas para impedir a expansão da aliança para países como a Ucrânia.

Em plena crise, porém, a visita de Bolsonaro no final de fevereiro criou uma polêmica internacional. Para americanos e europeus, o governo brasileiro precisa deixar claro ao presidente Putin que o Ocidente e as democracias não aceitarão uma invasão da Ucrânia ou o aumento da tensão.

Fé, família, carne e voto

Já Bolsonaro tem outros objetivos na viagem. Ele espera consolidar uma aliança em torno de temas como religião, família e mulheres, uma agenda que agrada sua base ultraconservadora num momento eleitoral no Brasil.

Por meses, o governo brasileiro tem apoiado propostas russas no Conselho de Direitos Humanos da ONU, muitas delas contrárias à expansão de direitos para mulheres e meninas.

A viagem também tem uma agenda comercial importante, com a esperança do governo de que conseguir abertura comercial e, assim, sinalizar que o Planalto está trabalhando pelos interesses dos exportadores agrícolas.

No Itamaraty, porém, o temor é de que, no caso de sanções impostas pelo Ocidente contra Putin, as exportações brasileiras também possam sofrer.

Um dos cenários desenhados por americanos e europeus seria o de suspender a Rússia do sistema de pagamentos internacionais, conhecido como Swift. Caso isso se transforme em realidade, os exportadores brasileiros poderiam ter dificuldades em receber pelo que vendem ao mercado russo.

Num recente levantamento, economistas do IPEA apontaram que houve uma queda importante no comércio entre Brasil e Rússia nos últimos anos. Em 2008, de acordo com o estudo, o país exportou US$ 4,6 bilhões para Moscou. Mas, em 2020, as vendas caíram para apenas US$ 1,5 bilhão. Dados obtidos pela coluna a partir de levantamentos do governo indicam que, em 2021, a realidade não foi diferente.

De fato, o Brasil até mesmo passou a ser deficitário. Em 2020, as exportações russas ao país somaram US$ 3 bilhões, de acordo com o IPEA.

Mas a esperança dos exportadores brasileiros é de que o cenário mude a partir de 2022, com a entrada em vigor de um acordo que prevê a volta das exportações de carne do país.

O acordo prevê uma cota de 300 mil toneladas de carne livre de tarifas durante 6 meses, mercado que pode ser utilizado pelo Brasil. A sinalização positiva da Rússia ainda compensaria o embargo chinês sobre as carnes nacionais, também de olho em manter apoios para a eleição no final do ano.

Outro trunfo de Bolsonaro é o de anunciar a visita de inspetores russos que poderiam liberar novos frigoríficos brasileiros para ampliar as exportações ainda em 2022.

Já do lado russo, Moscou garante que não irá interromper a venda de fertilizantes. Um quinto de tudo o que o Brasil compra do exterior para garantir os insumos para sua agricultura vem de fabricantes russos e, portanto, assegurar o fornecimento também é considerado como uma pauta estratégica para o Brasil.