PUBLICIDADE
Topo

Receba os novos posts desta coluna no seu e-mail

Email inválido
Seu cadastro foi concluído!
reinaldo-azevedo

Reinaldo Azevedo

mauricio-stycer

Mauricio Stycer

josias-de-souza

Josias de Souza

jamil-chade

Jamil Chade

Jamil Chade

Macron é reeleito, mas extrema-direita venceu

4.abr.2022 - Pessoas passam em frente a cartazes das campanhas de Emmanuel Macron e Marine le Pen, candidatos na eleição presidencial da França, exibidos na capital, Paris - 4.abr.2022 - Gonzalo Fuentes/Reuters
4.abr.2022 - Pessoas passam em frente a cartazes das campanhas de Emmanuel Macron e Marine le Pen, candidatos na eleição presidencial da França, exibidos na capital, Paris Imagem: 4.abr.2022 - Gonzalo Fuentes/Reuters
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

24/04/2022 15h03


Há exatos 20 anos, em abril de 2002, Jean Marie Le Pen causou um terremoto ao colocar a extrema-direita xenófoba no segundo turno das eleições presidenciais na França.

Sua votação foi considerada como um ultraje à república. Num gesto de união das forças democráticas, Jacques Chirac foi eleito com 82% dos votos. E a Europa respirou aliviada.

Hoje, duas décadas depois, Emmanuel Macron foi reeleito para mais cinco anos como presidente da França. Mas a realidade é que a extrema-direita venceu.

Marine Le Pen, filha do fundador do movimento, registrou uma votação recorde para seu partido, com 12 milhões de votos, contra 17 milhões para Macron. E, como legado do processo eleitoral, obteve duas conquistas. Seu movimento foi normalizado como parte do cenário político e ganhou o status hoje de principal oposição ao poder.

Ecologistas, que esperavam ter um apelo maior, não vingaram. E o tradicional Partido Socialista foi humilhado, transformado em uma força nanica. A candidatura de Anne Hidalgo terminou com 1,8% dos votos.

Se em 2017 Marine Le Pen somou 33% dos votos, hoje as primeiras indicações apontam que ela terminaria o processo com 42% de apoio, um recorde absoluto. No primeiro turno, ela venceu em 20 mil comunas.

Seu avanço foi conquistado, acima de tudo, na "França das Sombras", aquela distante da luz de Paris. As pesquisas revelaram que o apoio que ela conquistou foi avassalador entre a população sem diploma de escolaridade. Mas ficou com apenas 12% dos votos entre os eleitores com nível universitário completo.

Antes da eleição, as pesquisas indicavam que votariam pelo presidente mais de 72% entre a população com renda mensal acima de 2,6 mil euros. Mas Macron tinha apenas 41% dos votos entre a camada mais pobre, calculada a partir daqueles com salários abaixo de 970 euros.

Essas mesmas sondagens apontaram que Macron conquistaria 69% dos votos na zona parisiense. Mas menos de 45% no meio rural.

Onde Le Pen seduziu? Para analistas, seu resultado inédito foi consequência de sua decisão de reduzir - pelo menos publicamente - seu discurso ideológico e trocá-lo por um tema incontornável: como sobreviver diante do aumento de preços e de uma renda cada vez menor?

Não por acaso, ao chegar uma vez mais ao segundo turno, Le Pen teve a ousadia de pedir votos de "esquerda à direita", em nome de justiça social. Ela, que sempre se pautou em dividir o país por meio do ódio, se deu a função de "unir a França".

Ao contrário de eleições passadas, ela de fato conseguiu atrair uma parcela de votos de outros partidos. As sondagens, antes deste domingo, indicavam que 17% dos eleitores da direita tradicional migraram para Le Pen no segundo turno e 16% dos votos do atual líder da esquerda, Jean Luc Melenchon também beneficiariam a candidata da extrema-direita.

O resultado neste domingo é ainda uma resposta da ala fiel a Marine Le Pen dentro de seu partido. Nos últimos dois anos, em eleições regionais, o Rassemblement National sofreu importantes derrotas e viu uma hemorragia de políticos. Em 2022, com um novo discurso, ela volta a se instaurar no centro do movimento.

A eleição de Macron foi recebida pelos demais países europeus como um alívio, num cenário já incerto diante da guerra na Ucrânia. Mas os resultados também mostraram que a existência política da extrema-direita disputando o poder não é mais um acidente.

Hoje, a extrema-direita acolhe o apoio de 40% dos militares e 70% dos policiais, tem a maior representação francesa no Parlamento Europeu e não é mais temida por metade dos franceses, em um eventual governo.

Ela ainda conseguiu sequestrar agenda política, mesmo estando na oposição, e obrigando os demais partidos a debater assuntos que a extrema-direita impôs.

Assimilados no país e no debate da mesa do jantar, os representantes de Marine Le Pen conseguiram que temas como a imigração ganhassem seu próprio contorno ao ponto de ministros de Macron acusarem ela, agora, de ser suave demais com a ameaça islâmica.

Neste domingo, em Evian, muitos na fila do voto sabiam quem venceria a eleição de 2022. Mas a pergunta que todos faziam era outra: quem vai parar a extrema-direita em cinco anos?