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Jamil Chade

Brasil propõe criação de corredores de alimento e fertilizante no mundo

O ministro das Relações Exteriores, Carlos Alberto de Franco França - Reprodução/Ministério das Relações Exteriores
O ministro das Relações Exteriores, Carlos Alberto de Franco França Imagem: Reprodução/Ministério das Relações Exteriores
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

09/05/2022 13h07

O governo brasileiro quer um acordo global para permitir que corredores de alimentos e fertilizantes possam ser criados, impedindo que a guerra na Ucrânia ou as sanções contra a Rússia abalem os mercados e o abastecimento agrícola.

A proposta foi sinalizada nesta segunda-feira pela delegação do Brasil na OMC (Organização Mundial do Comércio) e ocorre num momento em que o conflito leva os preços de commodities de alimentos a bater recorde, além de uma explosão da inflação e fome em diversas partes do mundo.

Para a economia brasileira, além da questão dos alimentos, um dos pontos centrais é capacidade de manter acesso a fertilizantes russos, que dominam o mercado nacional.

A conferência ministerial da OMC ocorre em junho e a esperança dos organizadores é de que, durante a cúpula, um entendimento seja estabelecido para garantir que medidas comerciais não minem a capacidade de populações inteiras de se alimentar.

Segundo a delegação brasileira, a conferência "ocorre em circunstâncias excepcionais" e os resultados devem abordar tanto as emergências existentes quanto as questões estruturais da OMC. De fato, a coluna apurou que todos os processos negociadores têm sofrido abalos, com delegações que se recusam a entrar em salas com a presença de diplomatas russos.

Para o governo brasileiro, porém, o temor é de que a prolongação da guerra se transforme em prejuízos para as exportações agrícolas do país, enquanto o risco da fome volta ao debate internacional.
"A segurança alimentar será a questão mais premente na conferência ministerial", disse o Itamaraty, em uma reunião em Genebra.

A diretora-geral da OMC, Ngozi Okonjo-Iweala, esteve com o chanceler Carlos França e com o presidente Jair Bolsonaro há poucas semanas e o tema agrícola também foi tratado. "Em um momento em que a segurança alimentar é uma ameaça que paira no horizonte da economia mundial, o Brasil é parte da solução. Nossas exportações agrícolas alimentam um em cada dez seres humanos. Numa base sustentável, numa base eficiente, o Brasil é uma potência agrícola", disse a missão do Itamaraty.

Para o governo, porém, não se trata apenas de comércio. "Na semana passada, as agências humanitárias lançaram um apelo para que os mercados sejam mantidos abertos, pois a fome aguda está subindo a níveis alarmantes e a situação alimentar global corre o risco de piorar ainda mais", disse.

Referindo-se a uma conversa da chefe da OMC com Bolsonaro, a delegação destacou que uma dimensão central da solução para a "questão da segurança alimentar é garantir que os insumos necessários para preparar as colheitas do próximo ano estarão disponíveis para os produtores".

"Este ano, a crise alimentar se manifesta essencialmente sob o pretexto do aumento dos preços. Na ausência de um abastecimento oportuno para os insumos, como fertilizantes, é o próprio fornecimento mundial de alimentos que estará em risco a partir do próximo ano", alertou.

Segundo o Itamaraty, o Brasil já começou a explorar com os países afetados pela crise alimentar, particularmente os mais pobres, o estabelecimento de "corredores de emergência para garantir a circulação de alimentos e fertilizantes". A coluna apurou que as conversas ocorreram com países africanos e latino-americanos.

"A conferência ministerial deve dedicar atenção especial a esta questão e o Brasil gostaria de propor uma iniciativa específica para garantir o acesso a fertilizantes", anunciou. "É, ninguém o ignora, uma questão complexa e multifacetada. Ela exigirá estreita cooperação entre as agências governamentais e entre as organizações internacionais. Trata-se de uma tarefa complexa, mas indispensável", insistiu.

O Brasil deve ser representando no evento pelo chanceler Carlos França.