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Jamil Chade

Sem sinal de desescalada militar, Putin faz amalgama entre nazistas e Otan

Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

09/05/2022 05h18

Num teatro milimetricamente calculado, diante de 10 mil soldados e com uma orquestra de sopros ultra afinada, Vladimir Putin não hesitou em transformar a comemoração da vitória contra os nazistas na Segunda Guerra Mundial em um palco para justificar o que Moscou chama de "operação especial" na Ucrânia. Em seu discurso com o objetivo de mostrar uma suposta força bélica e a união de um país, o chefe do Kremlin não desperdiçou a oportunidade de fazer paralelos entre o que estava em jogo em 1945 e 2022 e mostrar que existia uma continuidade entre os dois eventos. Para negociadores estrangeiros, seu tom não sinaliza qualquer desescalada militar, nem um caminho claro para um processo que possa permitir uma mediação do conflito.

Para além da retórica de que não haverá um sinal de que ele esteja cedendo às sanções, sua sugestão de que as ameaças de hoje são similares àquelas dos anos 40 chamou a atenção da diplomacia ocidental.

Putin destacou como são os mesmos territórios que estão em disputa e, no lugar de um discurso apenas concentrado contra milícias neonazistas na Ucrânia, transferiu a ameaça existencial da Rússia para o Ocidente, para a Otan e para os EUA.

"Ninguém esquecerá as lições da Segunda Guerra Mundial para que não haja lugar no mundo para os nazistas", disse.

Depois de lembrar da vitória em 1945, ele rapidamente se referiu à Ucrânia. "Agora é a mesma coisa. Vocês estão lutando por nosso povo em Donbas, pela segurança de nossa pátria. O dia da vitória está próximo a cada um de nossos corações. Não há família na Rússia que não tenha sido atingida pela grande guerra patriótica. Estamos orgulhosos da geração de vencedores", disse.

Mas foi a transferência da culpa ao Ocidente que marcou seu discurso. Diplomatas europeus já esperavam por isso, ainda que o amalgama entre a ameaça nazista e o que significa a Otan tenha levantado sobrancelhas nas diferentes embaixadas.

Para Putin, o Ocidente estava preparando abertamente um ataque a Donbas e à Crimeia, e houve um debate em Kiev sobre armas nucleares. Isso, segundo ele, teria criado "uma ameaça inaceitável bem na nossa fronteira". Ele ainda acusou os EUA e "seus lacaios" de ignorar uma proposta russa por um acordo no final do ano passado. "O perigo cresceu a cada dia", justificou.

Na visão de diplomatas, o que fica claro ainda pelo discurso do líder russo é de que, apesar de uma guerra ou uma mobilização não ter sido convocada, não houver qualquer sugestão por parte de Putin de que exista espaço para uma negociação ou que uma desescalada esteja sendo planejada.

A decisão do russo de qualificar o esforço de seus soldados como um ato em defesa da "terra mãe" foi interpretada como um sinal de que Moscou não está disposta a retirar no curto prazo suas tropas ou buscar uma alternativa para deixar a Ucrânia.

"Não há sinal de que estejamos caminhando para uma desescalada militar", lamentou um negociador europeu, após o discurso.