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Jamil Chade

Após 665 mil mortes, Queiroga dirá na OMS que Brasil acertou na pandemia

Ministro da Saúde Marcelo Queiroga ao lado de Bolsonaro - Alan Santos/PR
Ministro da Saúde Marcelo Queiroga ao lado de Bolsonaro Imagem: Alan Santos/PR
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

22/05/2022 07h49

Tentando ignorar o fato de que o país conta com um dos maiores números de mortes do mundo pela covid-19, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, desembarcou neste fim de semana em Genebra para levar um discurso de que o governo de Jair Bolsonaro acertou no combate à pandemia, que a vacinação atinge taxas elevadas e que valoriza os serviços universais de saúde.

Num esforço para desfazer a imagem de negacionista, Queiroga participa da Assembleia Mundial da Saúde que começa neste domingo com o objetivo de apresentar o Brasil como uma espécie de exemplo em algumas das respostas à crise. A participação ocorre no mesmo momento em que, coincidindo com o início da campanha eleitoral, o governo Bolsonaro decreta o fim da emergência sanitária.

Para agência internacional, não está na hora de declarar o fim da pandemia e 70 países estão registrando um aumento de casos.

O discurso de Queiroga está programado para ocorrer na manhã de segunda-feira. Segundo membros da própria pasta de Saúde, o ministro leva consigo um discurso que, pelo menos em uma primeira versão, beirava o ufanismo ao reforçar os resultados da taxa de vacinação e outras medidas adotadas pelo país.

De acordo com fontes que tiveram acesso ao documento, uma versão preliminar ignorava a demora no início da imunização, o comportamento do presidente Jair Bolsonaro de promover aglomerações, as críticas contra as recomendações da OMS, a compra milionária de remédios que comprovadamente não funcionavam e principalmente o fato de o Brasil ter um dos maiores números de mortes pela covid-19 no mundo —só é ultrapassado pelos Estados Unidos.

A partir deste fim de semana, ministros e chefes de governo de todo o mundo voltam a se reunir pela primeira vez de forma presencial na OMS (Organização Mundial da Saúde). Um dos objetivos é o de começar a construir a nova arquitetura da diplomacia da saúde e instrumentos novos para que uma nova pandemia não pegue o mundo desprevenido.

Procurado em duas ocasiões, o Ministério da Saúde não informou qual será a agenda de Queiroga na Suíça. O Itamaraty também manteve silêncio. A coluna apurou, porém, que ele terá reuniões bilaterais com alguns países, participará de eventos no domingo e segunda-feira e, depois, continua viagem ao Fórum Econômico de Davos.

Queiroga, porém, chegará com um discurso de valorização do SUS, enquanto o governo quer aproveitar que passou a ser doador de vacinas para insistir que o Brasil é também parte da solução.

Se Queiroga espera "normalizar" a relação do Brasil com o setor de saúde global, a ordem entre governos estrangeiros é a de tratar a atual administração brasileira com uma mistura de cautela e frieza. "Estamos dialogando com o Brasil, mas já olhando para o que poderá ser o fim de um governo", admitiu uma negociadora de um importante país europeu. Em condição de anonimato, ela reconhece que existe um "alívio" generalizado diante do risco de que Bolsonaro não ganhe um segundo mandato.

Nos corredores da OMS, ainda ecoam os comentários críticos ao governo brasileiro que, no auge da crise da pandemia, optou por ignorar as recomendações da ciência.

Na cúpula da agência, o nome do presidente brasileiro era seguido pela palavra "louco", enquanto técnicos não entendiam como um país com experiência em questões sanitárias, especialistas de alta qualidade e uma rede sólida de atendimento sucumbiu de uma forma tão profunda ao vírus. "Onde estão vocês?", chegou a questionar um dos principais operadores da resposta da OMS, em meio às mortes que se acumulavam.

Steve Levitsky, professor da Universidade de Harvard e autor do best-seller "Como Morrem as Democracias", destaca que Bolsonaro optou por copiar Donald Trump até mesmo em políticas que fracassaram.

"Pandemia ainda não acabou", alerta OMS

O evento mundial começou neste domingo com um vídeo sobre a dor, sobre o fato de que os últimos dois anos "nos abriram os olhos" e que a saúde está ligada à prosperidade econômica.

Coube ao diretor-geral da OMS, Tedros Ghebreyesus, dar o tom do evento. Segundo ele, o mundo "sofreu e continua sofrendo" diante da pandemia. Segundo ele, o número de mortes extras durante a pandemia foi de 15 milhões de pessoas, bem acima das taxas oficiais.

Criticando a desinformação, algo que foi amplamente usado pelo governo Bolsonaro, ele deixou claro que a pandemia não terminou. "Ela não vai desaparecer de forma mágica", disse.

"Em muitos países, as restrições foram retiradas e a vida parece como antes. A pandemia acabou? Não. Certamente não terminou", disse.

"Não era a mensagem que vocês queriam ouvir. Mas não o que eu queria dizer. Mas é a realidade", afirmou Tedros aos ministros de todo o mundo.

Segundo ele, houve progresso e a vacinação chega a 60% da população mundial. Mas apenas 57% dos países conseguiram superar a marca de 70% de suas populações imunizadas.

Tedros destacou que mais de 70 países registram um aumento de casos nas últimas semanas. "A pandemia não terminará enquanto não estiver terminada em todo o mundo", disse. "O vírus nos surpreendeu e ainda não podemos prever seu passo ou intensidade", completou.

Ao abrir o evento, o ministro da Saúde da Suíça, Alain Berset, também deixou claro: "ainda não vencemos a pandemia". Uhuru Kenyatta, presidente do Quênia, usou a conferência para dizer que dezenas de países pelo mundo "dependeram" das recomendações da OMS para lidar com a crise, uma postura que o governo Bolsonaro por meses se recusou a aceitar.

O secretário-geral da ONU, Antônio Guterres, qualificou a pandemia como "um teste moral que a humanidade está fracassando".

Já o presidente da França, Emmanuel Macron, destacou que a pandemia não terminou e que novas variantes podem surgir. Segundo ele, os esforços precisam continuar para a vacinação da população mundial.