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Jamil Chade

No camburão, um país asfixiado

Policias mantiveram homem preso no porta-malas com gás lacrimogêneo  - Reprodução
Policias mantiveram homem preso no porta-malas com gás lacrimogêneo Imagem: Reprodução
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

26/05/2022 13h28

A cena em Sergipe de um homem assassinado num carro policial é um retrato de um país que vive o desmonte de direitos, cujo futuro é asfixiado a cada dia e onde a morte é banalizada.

Todos os levantamentos e estudos apontam para o mesmo fenômeno: nos últimos poucos anos, foi registrada uma regressão sem precedentes de direitos construídos nos últimos 30 anos no país. Violações passaram a fazer parte do cotidiano de uma sociedade que se acostumou com a destruição como arma política. Com a tortura como estratégia de poder. Com a ameaça como tática negociadora.

Quando um homem é asfixiado num carro de polícia, o Estado fracassou. Essa mesma asfixia vem na forma da fome, do racismo e do abandono num corredor de hospital. Assassinatos no camburão de um país que vive uma procissão de caixões sem destino.

Numa encruzilhada e com a visão turva pelo gás, temos apenas duas opções: indignar-nos e reagir. Ou normalizar a barbárie e aguardar o dia em que ela também vai nos asfixiar.