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Jamil Chade

REPORTAGEM

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Sem mulher como chanceler, governo quer embaixadoras em postos estratégicos

Itamaraty - Agência Brasil / Fabio Rodrigues Pozzebom
Itamaraty Imagem: Agência Brasil / Fabio Rodrigues Pozzebom

Colunista do UOL

09/12/2022 16h43

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O governo eleito de Luiz Inácio Lula da Silva frustrou uma parcela importante do Itamaraty ao não escolher uma mulher para comandar o Itamaraty. A escolha por Mauro Vieira, porém, será acompanhada por uma promoção de embaixadoras a locais e postos considerados como chave dentro da diplomacia nacional.

A esperança de uma parcela do Itamaraty era de que, depois de um governo acusado de ser misógino, a nomeação da primeira mulher para chefiar a chancelaria seria um recado claro ao mundo de que o novo governo queria uma ruptura com a imagem de Jair Bolsonaro.

Ainda assim, a decisão é a de colocar a diplomata de carreira e embaixadora Maria Laura da Rocha como secretária-geral do Itamaraty. O cargo equivalente ao de vice-ministro é ainda uma sinalização de que a administração da chancelaria ficará com uma mulher.

A embaixadora desperta simpatia em uma parcela do Itamaraty pelo simbolismo de representar, na chancelaria, uma parcela majoritária da população brasileira - mulher e afrodescendente. Sua longa carreira está concentrada na Europa, tendo servido três vezes em Paris, três vezes em Roma, ademais de Alemanha, Rússia, Hungria e Romênia.

Mas a presença de mulheres não se limitaria ao cargo de Maria Laura da Rocha. Fontes na equipe de transição indicaram ao UOL que o objetivo é ainda de ter mulheres na chefia de algumas das principais secretarias dentro do Itamaraty, assim como no comando de postos no exterior em locais de relevância para o Brasil.

Um levantamento realizado pela ADB (Associação dos Diplomatas Brasileiros) mostra que o Itamaraty prioriza homens em promoções a cargos chaves da carreira. A entidade indicou que as mulheres representam 23% dos diplomatas no Itamaraty. Mas nenhuma delas ocupa o cargo de embaixadoras em postos estratégicos como Londres, Washington ou Buenos Aires. Um número mais significativo de mulheres em postos de comando apenas pode ser encontrado em locais como as embaixadas na África ou na América Central.

A pressão agora é para que essa realidade seja modificada, já nos primeiros meses do novo governo. A ADB também aponta que Vieira, quando serviu como chanceler no governo de Dilma Rousseff, registrou uma taxa de promoções de mulheres abaixo da média de outros ministros, inclusive sob o governo de Michel Temer.

Em nota publicada nesta sexta-feira, os representantes da ADB indicaram que, "na qualidade de representantes desta carreira de Estado, reafirmamos o nosso compromisso, integridade e respeito para servir o povo brasileiro, na defesa de seus interesses e da soberania nacional".

"Contribuiremos para uma temporada vindoura, próspera e pacífica, como rezam os valores da diplomacia brasileira, historicamente reconhecida pelo seu compromisso com o País e pela excelência no trato dos temas associados às relações internacionais com vistas à construção de uma sociedade mais justa, solidária e democrática", afirmou a Associação.

"A ADB dá as boas-vindas ao chefe da diplomacia brasileira no próximo governo, com quem buscará manter diálogo fluido e aberto, bem como aportar ideias em prol do fortalecimento institucional, da diversidade e da modernização das capacidades do Itamaraty para lidar com um mundo cada vez mais desafiador e complexo", escreve a ADB, por meio de sua presidente, a embaixadora Maria Celina de Azevedo Rodrigues.