Jamil Chade

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Lula critica UE, admite fracasso de acordo e fala em 'falta de respeito'

O presidente Lula criticou a Europa hoje, apontando o Velho Continente como o responsável pelo fracasso nas negociações entre Mercosul e UE. Na abertura da Cúpula do Mercosul, no Rio, ele disse que não haverá um acordo entre os dois blocos, apesar da tentativa das últimas semanas para permitir que o tratado fosse fechado.

Os dois blocos emitiram nesta quinta um comunicado apontando que o processo negociador vai continuar — não há, porém, qualquer data ou prazo.

"Confesso que eu tinha um sonho que na minha presidência (do Mercosul) pudéssemos concluir o acordo", disse. Lula afirmou que chegou a convidar o presidente do governo da Espanha e a presidente da Comissão Europeia para viajar ao Rio, caso o tratado fosse estabelecido.

Lula afirmou que conversou com vários dos lideres europeus, na esperança de destravar o processo. Na semana passada, em Dubai, ele ainda se reuniu com o presidente da França, Emmanuel Macron. "Eu fiz um apelo a ele para que ele deixasse de ser tão protecionista", disse o presidente, lembrando que todos os ex-chefes de estado franceses também adotaram a mesma postura de recusa de abrir seu mercado agrícola.

Não deu certo
Lula,

O brasileiro confirmou que pediu ao chanceler alemão, Olaf Scholz, que tentasse convencer Macron sobre a necessidade de uma flexibilização. "Ele não deu retorno, o que significa que também não conseguiu", afirmou.

Segundo ele, o Brasil herdou uma versão do acordo entre Mercosul e UE que havia sido negociada pelo governo de Jair Bolsonaro. O pacote, porém, era considerado como "inaceitável".

Segundo Lula, o atual texto negociado pelo Brasil é mais equilibrado que o que existia sob Bolsonaro. "Mas é insuficiente", admitiu.

Na questão industrial, Lula lamentou que os europeus não tenham aceito as propostas do Brasil nessa área. O governo brasileiro insistia sobre a necessidade de que espaços para promover a industralização nacional fossem preservados. Isso significava manter protegido certos setores na área de compras governamentais.

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"A resistência da Europa é muito grande. Estranho a falta de flexibilidade deles", insistiu, apontando que o Mercosul tem o direito de se industrializar.

Falta de respeito

Lula ainda criticou as exigências ambientais que os europeus apresentaram, ainda em 2023. "Tratávamos como se fossemos países colonizados", disse. Para ele, os termos eram até "falta de respeito".

Na proposta da Europa, as exportações do Mercosul poderiam ser punidas se o desmatamento na região aumentasse.

Diante da recusa do Brasil, o texto acabou sendo modificado. Mas gerou atritos entre os governos e um mal-estar entre os dois blocos.

Lula, que voltou a prometer desmatamento zero até 2030, ainda criticou o fato de os europeus tenham exigido verificar o desmatamento no país, sem passar pelos dados nacionais. "Eles precisam reconhecer nosso sistema de monitoramento", disse, alertando que não precisa ficar "prestando contas a qualquer um".

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Brasil pede que processo seja mantido

Lula ainda pediu que o governo do Paraguai, que assume a presidência do Mercosul, continue a negociar. "Não desista nunca, cara", afirmou, olhando para o presidente paraguaio, Santiago Peña. O país vizinho havia declaro que, se Lula não fechasse o acordo, não seguiria com as negociações.

Existem, porém, sérias dúvidas se haverá vontade política para isso. Em Bruxelas, a eleição para o Parlamento Europeu em 2024 deve paralisar qualquer tipo de nova concessão, o que dificultará uma negociação.

No Brasil, sindicatos e movimentos sociais mandaram recados claros ao Palácio do Planalto nos últimos dias insistindo para que o país não aceite o acordo da forma que ele está.

Leia a íntegra do comunicado conjunto apenas indica que processo segue

"A UE e o Mercosul estão engajados em discussões construtivas com vistas a finalizar as questões pendentes no âmbito do Acordo de Associação.

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Nos últimos meses, registaram-se avanços consideráveis. As negociações prosseguem com a ambição de concluir o processo e alcançar um acordo que seja mutuamente benéfico para ambas as regiões e que atenda às demandas e aspirações das respectivas sociedades.

Com base nos avanços efetuados até a presente data nas negociações, ambas as partes esperam alcançar rapidamente um acordo que corresponda à natureza estratégica dos laços que as vinculam e à contribuição crucial que podem oferecer para enfrentar os desafios globais em áreas como o desenvolvimento sustentável, a redução das desigualdades e o multilateralismo."

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