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Jeferson Tenório

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Caso Genivaldo: Homem negro é condenado a morte por não usar capacete

28.mai.2022 - Manifestantes protestam contra a morte de Genivaldo dos Santos, 38, em ato diante do Monumento Zumbi dos Palmares, no centro do Rio - JOSE LUCENA/THENEWS2/ESTADÃO CONTEÚDO
28.mai.2022 - Manifestantes protestam contra a morte de Genivaldo dos Santos, 38, em ato diante do Monumento Zumbi dos Palmares, no centro do Rio Imagem: JOSE LUCENA/THENEWS2/ESTADÃO CONTEÚDO
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Jeferson Tenório

Jeferson Tenório nasceu no Rio de Janeiro, em 1977. Radicado em Porto Alegre, é doutorando em teoria literária pela PUCRS. Estreou na literatura com o romance O beijo na parede (2013), eleito o livro do ano pela Associação Gaúcha de Escritores. Teve textos adaptados para o teatro e contos traduzidos para o inglês e o espanhol. É autor também de Estela sem Deus (2018). O avesso da pele (2020) é seu romance mais recente, publicado pela editora Companhia das Letras.

Colunista do UOL

30/05/2022 04h00

No ano passado, estive em Portugal pela primeira vez para participar de uma feira Literária, na cidade de Óbidos. Um lugarejo muito pequeno que fica entre Lisboa e a cidade do Porto. Chegamos eu e o meu amigo Paulo Wernek, que também ia participar do evento. Chegamos ao hotel por volta das 5 da manhã, ainda estava escuro.

A recepção estava vazia, esperamos por alguns bons minutos até que uma funcionária apareceu e nos informou que teríamos de esperar até as 7h para fazer o check-in e enfim entrarmos nos quartos. Foi então que Paulo perguntou se era perigoso dar uma volta pela cidade, já que era cedo e ainda estava escuro. A funcionária nos olhou com certa gravidade e respondeu que sim, que era muito perigoso.

Ficamos um pouco apreensivos, até que ela completou: é perigoso porque infelizmente as ruas estão com algumas pedras soltas e nessa escuridão vocês correm o risco de torcer o pé. Lembro que nos olhamos surpreso com a ideia de "perigo" que nos foi apresentada: "torcer o pé".

Trouxe esse episódio de Portugal para ilustrar e pensar sobre a distância do que significa "perigo" para nós brasileiros.

Pensar como foi que nós nos acostumamos com as atrocidades cotidianas? Quando foi que achamos normal homens e mulheres negras serem torturados e mortos por policiais? Fiquei pensando que tipo de vida é essa a nossa em que naturalizamos a violência gratuita? Que tipo de efeitos psicológicos fazem parte de nossa vida a ponto de achar que todo lugar escuro é perigoso? Que tipo de sociedade brasileira nós nos tornamos?

Sei que a comparação com o Brasil é inevitável e ao mesmo tempo injusta. Somos um país que até pouco tempo atrás matinha uma política escravagista. Além disso, não é difícil constatar que nossa história foi fundada no extermínio de povos indígenas, estupros, assassinatos e sequestros de corpos negros.

Séculos depois da invasão portuguesa no Brasil, sentimos não só os efeitos da colonização, mas a manutenção de uma estrutura que só se mantém porque a violência é retroalimentada todos os dias em nossas vidas.

A mentalidade de uma sociedade fundamentada pela violência produz episódios nefastos como o que assistimos no caso de Genivaldo, no último dia 25 de maio.

Desde o episódio terrível, as redes sociais e a impressa têm feito uma cobertura e denunciando o assassinato. Entretanto, penso que chamada mais justa para esse caso deveria ser: "Homem negro é condenado a morte por não usar capacete".

Lendo dessa forma parece ainda mais absurdo que homem tenha sido sumariamente assassinado por um motivo tão torpe. O mesmo capacete que o presidente Jair Bolsonaro nunca usou em suas motociatas. Aliás o silêncio do presidente diz muito sobre o que ele pensa dessas ações violentas.

Tenho visto argumentos de que a polícia está despreparada para situações de abordagem. Não concordo. Penso que a polícia está preparada para agir justamente desse modo. A truculência e a tortura estão a serviço das instituições de segurança pública.

Desde que a guarda imperial saiu dos palácios, ainda no século 19, para policiar as ruas e livrá-las dos vadios, perturbadores da ordem e ladrões este tem sido o modus operandi da polícia: vigiar, punir e por vezes matar corpos negros.

Genivaldo foi abordado, revistado, algemado, amarrado, preso, julgado e executado em minutos. Este é um cenário aterrorizante para população negra: porque uma simples volta de moto pode terminar em tragédia. Uma ida ao supermercado pode resultar em morte. Sabemos que é possível. Já vimos isso acontecer.

Certamente que por trás da farda policial existem pessoas. Homens e mulheres que fazem a segurança da sociedade. Que tem sua vida, suas famílias, são amorosos com familiares e amigos. Muitos deles pobres e oriundos de comunidades periféricas. Não desconsideremos que o trabalho da polícia é fundamental. Porque é claro que todos nós queremos segurança e a paz de caminharmos numa rua escura sem ter medo.

Neste sentido, o trabalho da polícia é importante porque nos protege de outras violências. A questão que se coloca aqui é: até quando as execuções farão parte da metodologia policial? Creio que a curto prazo algumas medidas devem ser adotadas pela corporação: como treinamento ancorado na preservação da vida, na clareza do que significa uma política de direitos humanos, a instalação de câmeras de vídeo individuais para cada policial, por exemplo.

Entretanto, precisamos mais do que isso. Precisamos de uma verdadeira mudança de mentalidade. De uma educação que saiba lidar com as diferenças. Uma polícia que não tenha a população pobre e preta como alvos a serem eliminados.

E isso passa pela redução das desigualdades raciais e sociais, enquanto não reduzirmos essas desigualdades, infelizmente ainda veremos cenas assombrosas como as de Genivaldo.

Para mim, enquanto brasileiro, é triste admitir que o nosso maior medo não são as pedras soltas de uma rua qualquer, numa rua escura. É duro admitir que a violência foi o nosso maior projeto como nação.