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José Luiz Portella

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Paulo Guedes, o ajuste fiscal "is far from the shallow now"

Ações; cotações; Ásia; mercado financeiro; bolsas - Getty Images
Ações; cotações; Ásia; mercado financeiro; bolsas Imagem: Getty Images
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José Luiz Portella

Sobre o Autor - Pós-doutorando em sociologia pela FFLCH-USP. Doutor em ciências- área história econômica Doutor em história econômica FFLCH-USP Engenheiro civil -especializado em gestão, orçamento e planejamento urbano; ocupou cargos públicos nos governos federal, estadual e municipal pesquisa medição do impacto das políticas públicas.

Colunista do UOL

21/10/2021 04h00Atualizada em 21/10/2021 15h37

O mercado financeiro acreditou em Paulo Guedes. Piamente. E, mesmo com a sequência de sinais de que ele se agarrava ao poder sem a menor elegância com os ensinamentos da escola de Chicago, continuou a lhe dar crédito, "waivers", perdões, com uma tolerância quase infinita, que nenhum outro ministro teve.

O mercado tem centenas de pessoas, no todo, coletando informações, participando de "lives", de seminários, de "calls". E não conseguiu enxergar o quanto a piscina era rasa. O mercado, amante da língua inglesa, só agora percebeu que os seus componentes vagavam em alto mar, sem colete.

O que explica tanta gente inteligente, que faz fortunas, errar tão grosseiramente?

Primeiro, o pensamento desiderativo. O desejo de acreditar naquilo que gostaria que "fosse", não no que é. O erro comum de trocar o mundo "como ele é", pelo "mundo como deveria ser", na opinião do mercado.

Segundo, a húbris, a soberba. Quem faz tanto dinheiro "se acha" acima do bem e do mal, e confunde o poder que tem de pressão no Congresso, o poder de adiar anúncios de Auxílio Brasil, com a capacidade de efetuar profecias autorrealizáveis.

Terceiro: como o mercado vive errando as previsões, que centenas de agentes fazem no início do ano sobre câmbio, taxa Selic, inflação, bolsa e vai as acertando ao longo do tempo, acostuma-se com o direito de preferir errar em conjunto do que enxergar algo diferenciado e apostar nisso. Triunfa, quase sempre, o medo de perder prestígio.

Quarto: acreditar nas informações que os políticos proeminentes fornecem ao mercado nos cafezinhos dos seminários, que trazem esses políticos de Brasília para o convescote da Faria Lima, para encanto deles e usufruto do mercado.

Quinto, último, e mais importante: um espírito corporativo de classe. Se o czar da economia defende os mandamentos que o mercado imagina inquebrantáveis para manter o status quo, ele se une em torno do representante, não mais como quem segue a lógica do que este faz, porém como um defensor do sindicato da Faria Lima e seus valores.

O sentido de classe, de guilda, exerce um poder aglutinativo maior do que a razão. Supostamente a maior fundamentação que o mercado utiliza para expor suas convicções.

Há agentes de mercado que contratam consultores para dizerem o que eles querem escutar e não o que desfila incontinenti.
Paulo Guedes teve uma sequência de decadência ruinosa.

Afastado por 30 anos do centro da discussão econômica, rejeitado e ressentido, grudou em Afif, dois patinhos na lagoa. Não deu certo.
Voltou pelas mãos de Bebianno e aderiu a Bolsonaro, tão mais esperançoso, quanto mais percebeu o desconhecimento deste sobre economia.

Iria ser o condutor do Brasil, enquanto Bolsonaro cuidaria dos campos de tiro, das igrejas e do vestido cor-de-rosa das meninas e da camisa azul dos meninos.

Percebeu que a piscina ia perdendo o pé.

Passou então para o mercado que haveria uma agenda Guedes, amparada em Milton Friedman e nos Chicago's Boys do Chile de Pinochet. Esquecendo-se que lá era uma ditadura. O que se queria, se fazia. Relembrou com afeto o regime de Pinochet ao vaticinar um novo AI-5 a caminho no Brasil. Errou de cenário.

Foi se esboroando. E o mercado acreditando. Foi conduzindo o mercado para depois da arrebentação, com o bote salva-vidas do Teto de Gastos. Mesmo percebendo que o bote tinha rachaduras, o mercado apostou que chegaria ao outro lado do continente. Os buracos dos dribles no Teto começaram a jorrar um chafariz pelo barco adentro. Ainda acreditaram que ele colocaria o dedo nas fendas. Guedes se abraçou ao presidente e deixou o barco à deriva com seus furos; e disse adeus às ilusões e aos amigos de Chicago; tratou de salvar-se do naufrágio, e aferrar-se ao poder, do qual se viu apartado por 30 anos.

O mercado descobriu que não dava mais pé e reagiu. Um pouco tarde.

Paulo Guedes está com menos credibilidade que o arsenal atômico no Iraque e eleições na Coreia do Norte.

De vendedor de ilusões virou comerciante falido. Com a solércia de ter deixado o dinheiro fora do mar tempestuoso brasileiro e vagado para as águas "calientes" do Caribe.

E os componentes do mercado com aquele ar sapiente?

They are far from the shallow now. E com imenso receio da lancha de salvamento de Luiz Inácio.

PS: Paulo Guedes acusava Rogério Marinho de ser ministro fura-teto. A desmoralização de PG é total.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL