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José Luiz Portella

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A estranha ascensão de Moro

Ex-ministro da Justiça Sergio Moro - Ueslei Marcelino
Ex-ministro da Justiça Sergio Moro Imagem: Ueslei Marcelino
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José Luiz Portella

Sobre o Autor - Pós-doutorando em sociologia pela FFLCH-USP. Doutor em ciências- área história econômica Doutor em história econômica FFLCH-USP Engenheiro civil -especializado em gestão, orçamento e planejamento urbano; ocupou cargos públicos nos governos federal, estadual e municipal pesquisa medição do impacto das políticas públicas.

Colunista do UOL

07/12/2021 09h36

Moro está assombrando a Bolsonaro, Lula e a todos nós.

Ele conseguiu uma posição incrível : mesmo diante de tantas explicações que tem a dar sobre sua atuação no Telegram, Lava Jato e movimento político na ida para o ministério, depois de ter ajudado claramente a Bolsonaro, ele encontrou uma blindagem que o faz captar votos, independentemente do que fez.

Por quê?

Porque Bolsonaro causou tal rejeição, tal arrependimento dos antigos antilulistas, que Moro virou um estuário convidativo. E por Lula não mostrar nenhum arrependimento pelos erros, nenhuma autocrítica e se comportar com certa presunção diante dos equívocos. Ou seja, o espírito da época, o Zeitgeist, é algo no sentido excludente, vota-se contra o que mais se rejeita.

Isso não seria novidade, acontece frequentemente, a novidade é ser tão forte, que quaisquer vícios da alternativa, no caso, Moro, não afeta o desejo de votar nele.

Ocorreu com Bolsonaro semanas antes do primeiro turno em 2018, todas as insanidades que ele falara no passado, não foram levadas em conta, tal a rejeição ao PT. Este, teria que fazer uma revisão, em quatro anos, com tantos absurdos de Bolsonaro, melhorou sua posição, mas não logrou evitar a continuidade de tal repulsa, no eleitorado de centro.

Quanto mais Bolsonaro e Lula falarem mal, criticarem Moro, mais eles estarão propiciando adesões a ele. É exatamente, na eleição, o efeito reverso, quando a crítica ao antagonista feita por determinado candidato tem o efeito de o elevar em vez de subtrair votos. Quer dizer, Bolsonaro e Lula se transformam em cabos eleitorais de Moro. Paradoxal, contudo real. Aí reside a a posição incrível.

Sérgio Moro não mostrou até agora conteúdo para ser presidente. É certo que seria bem menos letal do que Bolsonaro, porém o vazio de propostas para um Plano de Desenvolvimento do Brasil, a superficialidade do que apresenta e o desconhecimento da gestão pública são sinais graves para o futuro, se não melhorar.

Pedro Fernando Nery, um atilado observador da coisa pública, em sua coluna de hoje, terça-feira no Estadão, Moronomics, perscruta bem o livro de Moro, e mostra como esses defeitos: superficialidade, falta de proposta mais elaborada e desconhecimento básico da Economia, como Bolsonaro, aparecem na publicação e no discurso do candidato.

Em outro lado, na UOL, aparecem juristas afirmando que a Corte Anticorrupção proposta por Moro em sua área de atuação, seria inconstitucional.

Moro revela um certo gosto por atalhos que atropelariam o caminho legal, que ele deveria respeitar antes de tudo.

Todavia, é importante também observar porque chegamos a mais esta jabuticaba política.

Os quatro anos de desventuras de Bolsonaro não realizaram o surgimento de opções para o Nem-Nem.

Nem Ciro, a quem não faltam propostas, nem conhecimento da máquina pública, porém sobram presunção e forma de comportamento semelhante ao de Collor, agressivo, com ofensas pessoais descabidas e palavras chulas que não se harmonizam com um presidente, sobretudo depois da distopia bolsonariana.

Como o Brasil não conseguiu produzir uma alternativa?

É caso para refletirmos muito. A interação de todos nós, e não a culpa de um ou dois setores da sociedade, é que produz isso. Somos todos culpados de alguma forma. Somos culpados independentemente de culpa como alude certa área do Direito. Não é possível que algo assim aconteça sem a participação de contingente amplo da sociedade, incluindo certas vozes de mercado, hoje estarrecidas, mas que apoiaram com vigor e olhos blindados a Bolsonaro, em atitude semelhante a atual que sustenta o apoio a Moro.

O Brasil tem muitos "coitados" e poucos responsáveis, na hora H todo mundo sai pela tangente como se não tivesse nada com o assunto.

Moro assombra a todos e por enquanto, apesar dos defeitos, está se mexendo bem na conquista de apoios e votos, surpreendendo aos políticos mais antigos e experientes, que tiveram oportunidade de ocupar esse espaço que hoje Moro ocupa.

Assombração, sabe para quem aparece.

O Brasil não quer aprender.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL