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José Luiz Portella

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Dor e frio na madrugada: a vergonha da cidade mais rica do Brasil

Equipe da Missão Belém entrega cobertores para moradores de rua no centro de Sao Paulo, na Praça da Sé e no Pátio do Colégio - Flávio Florido/UOL - 25.mai.2021
Equipe da Missão Belém entrega cobertores para moradores de rua no centro de Sao Paulo, na Praça da Sé e no Pátio do Colégio Imagem: Flávio Florido/UOL - 25.mai.2021
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José Luiz Portella

Sobre o Autor - Pós-doutorando em sociologia pela FFLCH-USP. Doutor em ciências- área história econômica Doutor em história econômica FFLCH-USP Engenheiro civil -especializado em gestão, orçamento e planejamento urbano; ocupou cargos públicos nos governos federal, estadual e municipal pesquisa medição do impacto das políticas públicas.

Colunista do UOL

18/05/2022 07h55

São Paulo, síntese e farol do Brasil, não precisa passar por esta situação.

A madrugada somos nós. Sem maquiagem. A dor do frio é pungente e insofismável.

Às seis horas da manhã está 7°C, com um vento que não sopra, açoita. No meio da madrugada foi pior.

Trinta e oito mil pessoas podem estar nas ruas de São Paulo, espero que alguns milhares tenham conseguido algum abrigo.

Algumas pessoas se movimentaram para ajudar os moradores em situação de rua. Um amigo, inserido no contexto político atual, levou o dia a arrecadar fundos para comprar cobertores. Já é uma esperança que no futuro isso seja erradicado de São Paulo.

À noite, foi levar para o Padre Júlio Lancellotti, no centro de São Paulo. Conseguiu arrecadar R$ 94 mil. ONGs distribuíram comida e agasalhos, não falta gente desprendida e solidária.

O frio está radioativo.

A culpa por este quadro desumano e avassalador é de todos nós. Como pode uma sociedade rica como a paulistana, formada por quatrocentões, migrantes, imigrantes, descendentes, que forjaram a a cidade mais rica da América Latina, permitir isso?

A prefeitura pode e deve ajudar a transformar tal quadro, mas não cabe só a ela essa dura batalha.

Não resolve ficar só removendo a culpa para prefeitura, que tem parte, mas, que isolada , não logrará vencer um cenário tão doloroso, que vejo crescer desde que Maria Filomena Gregori, filha de Zé Gregori e Maria Helena, orientada por Ruth Cardoso, defendeu a tese de doutoramento na FFLCH- USP, "Meninos Nas Ruas: A Experiência da Viração", em 1997, quando meninos e meninas se viravam nas ruas, boa parte oriundos da perda do vínculo afetivo familiar, a cheirar cola.

A tese registra: " A instituição de uma identidade, que tanto pode ser um título de nobreza ou um estigma (você não passa de um ...), é a imposição de um nome, isto é, de uma essência social. Instituir, atribuir uma essência, uma competência, é o mesmo que impor um direito de ser que é também um dever ser (ou um dever ser). É fazer ver a alguém o que ele é e, ao mesmo tempo, lhe fazer ver que tem se comportar em função de tal identidade". (Bourdieu,1996:100).

A autora adverte: "Por estarem fora do lugar, os meninos de rua passaram a ser tomados como uma espécie de emblema que ilustra, de forma vigorosa e trágica, os dilemas sociais, políticos e morais da sociedade brasileira. O espaço que a mídia nacional e internacional abriram para focalizar essas crianças, fez delas, inclusive, representantes da infância pobre do país.

Foi em 1997, eles cresceram, e continuam na rua Agora acompanhados de tantos outros.

Cheiravam cola, agora usam a pipa do craque. E nós acompanhamos, passivos, todo o desenrolar.

Advertir não foi suficiente. Deixamos o problema crescer e atrair à rua, além dos meninos da viração, jovens, adultos, idosos. Prefeitos e prefeitos passaram pela cidade, de esquerda, de centro, de direita.

Não resolveram, alguns nem tentaram. A coisa piorou.

A pandemia escancarou a desigualdade no país, e esfregou em nossas faces a situação de 38 mil habitantes das ruas de São Paulo, 32 mil pelo censo realizado pela Prefeitura.

Esta madrugada estamos todos enregelados de culpa, indignados por vermos seres humanos como nós, paulistanos por nascimento ou adoção, tiritando pelos vãos das portas ou em barracas armadas, quando não desarmadas pela guarda civil e Polícia Militar.

Além de dor e culpa, o que fizemos?

Não resolve ficar culpando a prefeitura, que tem sim sua parte de inação, mas são a vontade e ações da sociedade que mudam esse triste quadro. E isso pode ser feito, sim. Não é um problema que está além da nossa capacidade.

A Prefeitura de São Paulo, graças também a um acordo sobre o Campo de Marte, tem recursos para isso.

Toda sociedade paulistana se diz com dor pungente, por ver gente em tal estado de desumanidade.

Cabe fazer. Não adianta só sofrer. É preciso agir de verdade com uma determinação inédita e crucial. Uma blitzkrieg contra a situação dos moradores em situação de rua e contra a extrema pobreza que assola um milhão e quinhentos mil habitantes de São Paulo, que pelos padrões da lei do Auxílio-Brasi,l vivem com menos de R$ 105 por mês por pessoa.

Se você acha que a Prefeitura de São Paulo não faz, empurre-a! O dinheiro que está no caixa é de todos nós. Gritou Ana Lúcia.

O dinheiro do Campo de Marte foi um mérito do prefeito conseguir o acordo, porém ele é fruto de uma intervenção federal na revolução de 30. Uma herança nossa.

É consternador se debruçar sobre essa madrugada. Um símbolo do nosso fracasso como sociedade.

Só a obra salva, a fé não é suficiente para aquecer essas pessoas, chega de conversa, postergação e lamentação, achando um culpa no outro.

Bora fazer!

Sentindo frio em minha (nossa) alma, vamos tirar os que estão na rua, são dois para lá, dois para cá.