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BNDES perde tempo e dindim com a caixa preta

Bernard Martinez/Folhapress
Imagem: Bernard Martinez/Folhapress
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

22/01/2020 16h08

O tempo no BNDES parece não existir. Ali, só existe o passar do tempo. Todos sabem o que precisa ser feito: vender a carteira de ações que torna o Estado sócio de múltiplas empresas e redirecionar a ação do banco. Mas uma urucubaca qualquer impede a conclusão da tarefa. Depois de matar o tempo durante o primeiro ano da administração de Jair Bolsonaro, a direção do BNDES precisa cuidar dos minutos, porque as horas passam muito rapidamente. No início do segundo ano de um governo agora seminovo, o debate sobre o fetiche da caixa preta virou uma inutilidade dispendiosa.

Desperdiçaram-se R$ 48 milhões numa auditoria sobre a caixa preta para constatar que o fantasma não existe. Nos governos do PT, o BNDES gastou dinheiro público como água. Despejou bilhões em empresas e ditaduras companheiras. Dizia-se que as operações produziriam o milagre das multinacionais brasileiras, as campeãs nacionais. Produziu-se não um milagre, mas uma espécie de pós-milagre. A água do BNDES não virou vinho, virou direto vinagre.

A constatação de que não há caixa preta não apaga o pós-milagre. Ele aconteceu. Mas o vinagre já tinha sido exposto no portal do BNDES e escancarado em inquéritos que apuram os descalabros. A caixa preta começou a ser aberta em 2015, quando o Supremo Tribunal Federal acendeu a luz do BNDES ao negar ao banco pedido para preservar o sigilo bancário de operações companheiras.

Confirmada agora a inutilidade da apuração, seria a hora de virar a página. E o presidente do BNDES, Gustavo Montezano, virou —só que para trás. Ele desperdiça o seu tempo realçando que a auditoria que resultou no desperdício milionário foi contratada durante o governo de Michel Temer. Se houvesse caixa preta, Montezano faturaria o resultado da auditoria como um grande achado sem mencionar o nome de Temer. Como não há, ele transfere responsabilidades.

Nada disso estaria acontecendo se Jair Bolsonaro tivesse dado crédito ao economista Joaquim Levy, que informava sobre a inexistência do fantasma nos primeiros meses da gestão Bolsonaro. Num arroubo de final de semana, Bolsonaro demitiu Levy da Presidência do BNDES. O ministro Paulo Guedes deixou barato. Com seis meses de governo, a tarimba do veterano Levy foi substituída pela inexperiência do novato Montezano. E o BNDES continua, no alvorecer de 2020, girando em torno da ficção da caixa preta como um parafuso espanado.

Enquanto isso, o que é realmente essencial —a venda de ações que o BNDES mantém em sua carteira— demora a se efetivar. Com enorme atraso, menciona-se a intenção de vender cerca de R$ 20 bilhões em ações da Petrobras. E as ações da Vale? E os papeis da JBS. E a carteira inteira? As respostas estão no Planalto. Mestre na produção de polêmicas, Jair Bolsonaro se finge de morto quando seus faniquitos resultam em versões novas de perda de tempo e de dinheiro.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Josias de Souza